quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O antigamente imponente prédio do Hotel Residência

Hotéis de Teresópolis

     Em 1949 , o Ministério da Agricultura lançou uma revista para divulgar o Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Exemplar raro, possivelmente único, guardado pelo colecionador Adérito Varejão, propriedade do acervo Pró-Memória Teresópolis, a revista de 78 páginas, com primeira página colorida - exibindo o montanhista Malvino confessando-se ao Padre Pio Ottoni, quatro anos antes, em junho de 1945 -, teve a “edição cancelada” e, não fosse o interesse de Varejão pela nossa memória, muitas informações alí impressas estariam hoje perdidas. 
     Além de mostrar os encontros, conferências, congressos e festividades ocorridas no Parque, no final daquela década, a publicação revela sobre as visitas dos embaixadores do Uruguai, Estados Unidos, Portugal e Inglaterra, países que se interessaram em conhecer a estrutura da nossa “reserva florestal” e, além de imagens das pouco conhecidas montanhas da Serra dos Órgãos, relata sobre um “esporte diferente, que vinha se desenvolvendo acentuadamente no Brasil”, o alpinismo, registrando a imagem de Miguel Inácio Jorge e o passeio que tinha feito ao Dedo de Deus, com um grupo de crianças, em 17 de julho daquele ano. Nomeou ainda os quinze clubes de excursionistas que relacionavam-se com o Parque, entre eles o CERJ, do Rio de Janeiro; CESO, de Teresópolis e o CEP, de Petrópolis.
     Mas, a informação que mais me interessou foi um registro que a revista fez, na página 31, onde enumerou os hotéis e “estabelecimentos de hospedagem” existentes em Teresópolis em 1949. Dez anos antes da abertura da Estrada Direta, quando a nossa rede hoteleira sofreria grande colapso, Teresópolis tinha cerca de 25 mil habitantes e 26 estabelecimentos de hospedagem. Dez anos depois, no Censo de 1960, já contava com 52.318 habitantes e 7 estabelecimentos de pouso a mais, sendo 23 hotéis e 10 pensões. Os hotéis de 1949, em Teresópolis, segundo a Revista do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, são os seguintes: Higyno, Le Magourou, Várzea, Teresópolis, Residência, Brasil, Flórida, Atlântico, Bragança, Rever, Califórnia, São Moritz, Fazenda da Paz e Rancho Santo Antônio; as pensões, Pomar, Pinheiros, Vera Cruz, Aguiar, Iris, Rio D’Ouro, Serrana, Vielle France, Viúva Bastos, São Geraldo, São Jorge e Pensão do Alto.
     Cinquenta anos depois, com uma população próxima de 170 mil habitantes, segundo a Secretaria Municipal de Turismo temos hoje entre hotéis, pousadas e albergues, 108 estabelecimentos de hospedagem.
     Criado em 1939, pelo decreto 1822, de 30 de novembro, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos foi idealizado pelo engenheiro Armando Vieira e, criado pelo presidente Getúlio Vargas, era administrado, à época, pelo engenheiro agrônomo Gil Sobral Pinto, sendo ministro da Agricultura, então responsável pela unidade, Daniel de Carvalho.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O Castelo Montebelo - jóia rara no centro de Teresópolis

O castelo Montebello, na época da construção
     Com traços que remontam as épocas vividas pelos senhores que erguiam ainda a bandeira do feudalismo, o magnífico Castelo Montebello foi palco para as aventuras da Jovem Guarda e para confraternizações da sociedade teresopolitana e, embora sua história não tenha grande referência para a memória municipal, transformou-se numa referência turística de Teresópolis.

     Sua construção teve início em meados dos anos 1930, pelo então embaixador do Brasil no México, Antonio Feitosa. EM 1946, após a morte do proprietário o castelo ficou em total abandono e a propriedade foi colocada à venda. Em 1950, o químico-farmaceutico Cyrillo Monthé e sua esposa compraram o castelo, reformando-o. Em evento no Rio de Janeiro, Monthé conheceu o arquiteto alemão Eugen Lutter Klass, que acabara de ser premiado na Alemanha com um projeto que mostrava como seria um castelo no século 21. O arquiteto Eugen recebeu, então, a proposta de colocar seu projeto vencedor em prática, mesclando recursos de uma casa moderna com a preservação de um lugar histórico.

     Dentre as belezas e raridades do Castelo Montebello, estão os vitrais que reproduzem a Santa Ceia, vindos da Hungria na década de 50. Um dos locais que mais agrada aos visitantes é o salão de festas, onde já foram realizadas importantes apresentações musicais. No calabouço, três salas: uma adega com capacidade para mais de 500 garrafas; uma sala que era usada para guardar objetos pessoais, como uma coleção de discos de vinil; e um salão de armas. Com a morte do Sr. Mothé, um dos seus três herdeiros, administrador do castelo, desfez-se do estoque de armas por considerar muito perigoso.

     Entre 1953 e 1956, o castelo esteve aberto para visitação púbica, sendo depois fechado até os anos 90, quando as portas do castelo se abriram novamente, para uma festa de Halloween organizada pelo Rotary e, depois, em 2005, quando foi alugado por um mês para o SESC realizar o tradicional Festival de Inverno. Nesse período, o Castelo serviu de local para a recepção de convidados e ponto de encontro de artistas, autoridades e personalidades do mundo da arte, para troca de idéias sobre os mais variados assuntos e, antes disso, no período em que esteve fechado, fez habitar na mentes das pessoas, inclusive dos vizinhos, que o lugar seria mal assombrado.

     Com exceção de suas belezas externas, onde predominam as suas paredes adornadas com pó de pedras idênticas à época medieval, o seu interior já passou por muitas modificações, sem alterar o seu estilo. O piso, que era de madeira corrida, fora substituído pelo piso sintético, principalmente suas escadas. Os lustres deram espaços a filetes de luz fluorescente. Todo seu perfil está conservado até o segundo andar as escadas tomam forma em “”V” e nos conduzem às salas e cômodos. São exatamente três andares de beleza e imaginação. As principais portas que dividem os cômodos são trabalhados em bronze e revelam a beleza de seus vitrais os quais compõem a beleza interior. No adro do castelo registra-se uma plaqueta de inauguração do monumento, a sua história e com ela os seus personagens. A beleza natural cerca o Castelo. São árvores gigantescas e flores que tomam corpo diante de uma visão minúscula no centro de Teresópolis.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013



  Serrana, a revista de Teresópolis

     Em fevereiro de 1956, surgia a mais bem sucedida publicação impressa em formato revista de Teresópolis. Criação do jornalista Renato Ferro, que já atuava como colunista dos semanários locais, a REVISTA SERRANA durou até 1982, extinguindo sua primeira fase seis anos depois do surgimento, com a edição de número 54, em 1962.
O Número 1 da Revista Serrana, em 1956
     Na edição Número 1, o corpo editorial da Revista Serrana era composto dos homens de imprensa Ulysses Souto, Alfredo Tymbira de Carvalho, Arthur Dal-masso, Antonio Sumavielle, Aurélio Lopes, Sylvio Guimarães, Rubens Tava-res e Luiz Sá, contando ainda com a colaboração do engenheiro agrônomo Osiris Rahal, do Fiscal de Rendas Rubem Alsina, de Sebastião de Barros, Jair Damasceno, Gentil Carvalho e Jorge Carvalho. As fotografias publicadas na revista eram feitas pelos fotógrafos Benvenuto Torri Machi e João Monteiro, e pelo Foto Vitória, também de propriedade de Renato Ferro.
     Renato Ferro tinha vários segredos para o seu sucesso. Nos moldes da revista O Cruzeiro, a Serrana tinha uma capa atraente, sempre com uma garota bonita ou um político influente. Os textos eram curtos e objetivos e os colunistas bem escolhidos, trazendo temas sempre relevantes. “Serrana não é filha de um idealista, mas sim, filha de um idealismo coletivo, que reuniu intelectuais, comerciantes, industriais, lavradores enfim, todos os filhos de Teresópolis, que trabalham e anseiam pelo seu progresso, num congraçamento espontâneo de colaboração. Ela vem satisfazer os anseios espirituais de alguns, e materialisar a idéia de muitos dos que admiram e amam esta cidade e que sempre desejaram objetivar um meio de propagar-lhe as belezas naturais, o clima e as inúmeras riquezas de que é possuidora, afim de torná-la conhecida, admirada e exaltada por todos”, dizia.
     Numa época em que a imprensa regular no município tinha como semanários os jornais Teresópolis e Gazeta, a Serrana, como era mais conhecida a publicação, tornou-se um título tão importante que vários interessados tentaram fazê-la ressurgir em outras fases: Em janeiro de 1976, Léo Torrents e Carlos Amorim editaram dez números. Entre dezembro de 1977 e dezembro de 1979, sob a responsabilidade de José Maurício Elarrat, sairam as edições 64 a 82. Nas primeiras edições desta terceira fase, que é sequência ininterrupta da segunda, a revista contou com importantes nomes da imprensa local, entre eles, Almeida Pinto, Alzedir Queiroz, Amaury Santos, Cesar Vieira Bastos, Deraldo Portela, Hélio Delgado, João Oscar do Amaral Pinto, Luiz Cataldi, Mendel Dyckerman, Oliveira e Silva, Rubens Tavares, Saul Mari-ano e Waldemar Lopes. Nos últimos números da Serrana de Elarrat, também colaboraram Dario Vieira, Orlando Magalhães, Marbil Rodrigues, Ama-deu Laginestra, Arnaldo Barbosa, Gastão Neves, Gilberto Arêas, Gustavo Smidth, Indio Brasileiro da Rocha, Léa Lippi Rodrigues, M. de Araújo Peres, Roberto Lippi Rodrigues, Ruyz Alcântara de Carvalho, Sebastião Aragão Filho, Vanildo de Sena, Victor Jahara e Vidocq Casas.
     Depois de seis meses fora de circulação, a Serrana ressurgiu em sua quarta e última fase, quando revezaram na editoria  Dario Vieira, Theomar Jones e Orlando Magalhães. A revista manteve a maioria dos colaboradores da versão anterior e passou a contar também com Edson Amaral, A. Sumavielle, Pedro Marcelino, Sandra de Oliveira, Paulo Bento Machado e Marcos Pereira. Evoluindo inversamente, em vez da composição eletrônica, os textos da Serrana dos números 83 a 88 eram confeccionados em linotipo e, como na época de Renato Ferro, duas décadas e meia atrás, também com tipos móveis. Foi um período sofrível da revista que tinha a proposta de manter-se mensal, mas editou apenas seis números em dois anos e meio.
     Dedicada ao jornalista Nilo Tavares, ao radialista Paulo Roberto, ao pintor Fernando Martins e aos empresários Djalma Monteiro, Pedro Serrado e Waldemar de Oliveira, a edição número 1 da Revista Serrana, de fevereiro de 1956, tinha Mirian Sitonio como Garota da Capa e textos primorosos do médico Antônio Sumavielle além de, entre outros, Alice Nunes, Rubem Alsina e Timbira de Carvalho.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013


  As escolas de samba e o carnaval


     O carnaval de Teresópolis não contou com a participação das escolas de samba este ano. Em 2013, a festa de Momo teve apenas blocos e shows. O evento pode ser considerado bom ou ruim, ou até ótimo ou péssimo, dependendo do olhar crítico e do interesse de quem faz a avaliação. Gostei dos shows, principalmente os dos grupos locais. As bandas da cidade são ótimas, o Dona Terezinha é o máximo e as marchinhas, de uns tempos pra cá mais presentes, a cada carnaval são mais apreciadas. Faltam mais matinês, melhor distribuição dos shows pelos bairros e mais apresentações de grupos locais, valorizando-se um maior número de artistas. É o carnaval dos sonhos, e tão almejado pelos que o realizam todo ano.

Comemorando os seus 50 anos, mesmo sem recursos públicos, o
Bambas da Serra desfilou esse ano. E fez bonito.
     Ao seu jeito, a prefeitura organizou um bom carnaval e a quarta-feira de ontem foi de merecidas cinzas para quem esteve, desde a última quinta-feira, nos bastidores da grande festa.

     A ausência dos desfiles carnavalescos, no entanto, merece uma reflexão do teresopolitano. Depois de estar com o carnaval semi-pronto e não pisar na avenida em 2011 por conta da Tragédia ocorrida um mês antes, as escolas de samba de Teresópolis não desfilaram também nos dois anos seguintes. Os motivos seriam as denunciadas irregularidades na utilização de recursos públicos, contas que foram verificadas como irregulares também pelo Ministério Público, já de olho no carnaval teresopolitano desde o governo passado.

     Enquanto a conta antiga não fechar, as escolas vão ficando sem dinheiro público nas suas contas. Por sua vez, a Liga que fazia de conta que prestava contas nem se tem conta se existe mais, nem contam mais com ela as agremiações carnavalescas, hoje à procura de um novo rumo. O lamentável ponto a que chegamos é resultado da proliferação de escolas, algumas surgidas, pelo que se viu, mais para buscar recursos públicos que para representar as comunidades na festa do carnaval.

     O quadro, no entanto, precisa ser revertido. E o improvisado desfile da Escola de Samba Bambas da Serra na última sexta-feira prova que Teresópolis pode voltar a ter um carnaval, mesmo sem subvenção em dinheiro por parte da prefeitura. Comemorando os seus cinquenta anos, o Bambas da Serra fez uma apresentação honesta, entrando no Parque Regadas com dignidade, merecendo o respeito e os aplausos dos que estavam por lá a espera de apreciar um bom carnaval.

     Carnaval é cultura. E, enquanto manifestação cultural, merece a devida atenção por parte do poder público. A prefeitura deve promover a sobrevivência das escolas de samba, permitindo ao público e às agremiações carnavalescas um desfile à altura da cidade. Precisamos de enredos que contem a nossa história, de um carnaval que divulgue nossos valores culturais e que sirva de lazer e orgulho para o teresopolitano.

     Quanto à malandragem verificada na utilização das subvenções, e que provocou a proibição do repasse de recursos públicos para as escolas, que ela seja punida exemplarmente. Que os presidentes, de liga ou de escola de samba, que eles paguem pelas irregularidades cometidas, servindo de exemplo para que os malandros que ainda se servem das escolas de samba procurem outro tipo de negócio para viver.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Teresopolitanos "arranjam-se" com a Tragédia
     O brasileiro é um empreendedor nato e não surpreende vermos o Eike Batista entre os dez homens mais ricos do mundo. O minerador tem apenas 30 bilhões de dólares a menos que o Bill Gates, da Microsoft, representando, segundo a Revista Forbes, a sétima maior fortuna do mundo.
     Como essa dinheirama se juntou pouco se sabe. Nem se sabe bem, também, quantas outras fortunas, sabidamente ilícitas, existem. Pelo que se rouba, informalmente, neste país, talvez tenhamos outros dez mais ricos que o próprio Eike, alguns deles até próximos de nós, vivendo em propriedades compradas no bom clima da serra com o suor e o empobrecimento coletivo.
     É problema pra outro texto e não interessa tanto falar desses imprestáveis agora. Talvez devêssemos nos preocupar mais com esse modelo econômico perverso que permite tanto dinheiro nas mãos de poucos enquanto tantos passam privações.
Em cima de um barranco, e debaixo de outro, um “cortiço” de três casas
foi construído na rua Jorge Mellick, 276, próximo ao clube Panorama.
As precárias casinhas de cerca de 30m2 cada estão alugadas para três famílias
e o proprietário está levantando o segundo andar, onde outras
três famílias poderão ser exploradas
     Lembrei da necessidade de falar sobre isso quando passando os olhos, de novo, no romance "Memórias de um Sargento de Milícias", de Manuel Antônio de Almeida, lí o delicioso trecho onde ele conta sobre o "arranjei-me do compadre". Incumbido pelo morimbundo comandante de um navio a entregar seu tesouro à filha deste caso morresse, e morto aquele que confiou em alto mar a um estranho sua fortuna, o "compadre" decidiu-se a instituir-se herdeiro, "arranjei-me" que explica muitas fortunas mundo afora.
     A verdade é que, conscientemente ou não, e diante do inusitado dos dias em que vivemos, temos nos arranjado de várias formas. Até na conquista do Dedo de Deus, em 1912, o jeitinho brasileiro fez os conquistadores da montanha arranjarem-se diante do empecilho que impedira, semanas antes, que dois alemães chegassem o cume. O ponto intransponível para os treinados alpinistas foi superado pelos teresopolitanos José Teixeira Guimarães, Raul Carneiro e os irmãos Oliveira: Acácio, Américo e Alexandre que, ao encontrarem o ponto abissal a poucos metros do cume, desceram o morro e arrastaram montanha acima uma enorme vara de pau, por onde subiram.
     A engenhosidade dos conquistadores ganhou fama e até quem nunca subiu pedra alguma conhece a história que marca o início do montanhismo brasileiro. "Quem conversa com José Teixeira, sobre a famosa empreitada, pouco mais lhe tira que esse recurso do pau. Só parece que ele fez uma coisa atôa e que se pagou de sobra sua industriosa valentia com o perfume das magnólias silvestres que encontrou no píncaro maravilhoso", conta em crônica o caso o escritor Manuel Bandeira, que já vivia em Teresópolis quando ocorreu o feito histórico.
     Engenhoso, ou "industrioso" como diria o poeta, o brasileiro arranja-se diante de qualquer dificuldade. Parece uma habilidade nativa, e até motivo de orgulho, esse "jeitinho" de nos arranjar-mos.
     Mas, esquecemos muitas vezes, o "arranjei-me" tem limites. Agora mesmo, na devastada Teresópolis do pós-tragédia, temos observado como essa cultura do arranjo têm feito mal à cidade.
     Tivemos cerca de 1.500 casas destruídas pelas águas, quase um terço delas de moradores que estavam acima da linha da pobreza, e temos mais de 3 mil recebendo aluguel social, com algumas vítimas reais ainda sem o auxílio. Convivemos com uma classe política que, em vez de dar casas às vítimas, se apropriam "politiqueiramente" de suas causas, abrigando interesses próprios, insolidários com o próximo, cada vez mais distante conforme afasta-se o período eleitoral.
     Se "arranjar-se" é um jeitinho brasileiro, esse povo que recebe aluguel social sem ter perdido casa, e que tem políticos que vivem de promessa de casa, ambos vem se arranjando muito bem. No entanto, não são só esses miseráveis que estão se "dando bem" com a Tragédia. A cada dia, temos visto engordar o número de pessoas que se aproveitam da ocasião e gozam com a desgraça alheia. Falo da especulação imobiliária. Não daqueles que aumentaram o valor do aluguel com a consequente demanda. À época, essa denúncia provocou até a posição da Justiça, que prometeu "cadeia para os que cometessem crimes contra a economia popular". É que virou costume na cidade, agora, empreendedores investirem na construção de moradias para os pobres. Mas, não como era de esperar. Esses "empresários" socialmente irresponsáveis não estão construindo casas habitáveis e legalizadas. Estão espalhando barracos pelos morros, em terrenos escriturados ou em invasões, na busca do dinheiro fácil do aluguel social. E fazem isso sob os olhares complacentes das autoridades. Constróem em áreas de risco e alugando pelo preço de mercado moradias inacabadas, e sem o devido habite-se da prefeitura, explorando o próximo que merece deles a solidariedade por serem mais favorecidos, e favelizando ainda mais a cidade.
     A favelização em Teresópolis é uma indústria e, nos bairros humildes, tem mais gente pagando aluguel do que morando em casa própria. São habitações precárias, insalubres e inseguras, oferecendo risco para os seus ocupantes, gente que se obriga a repassar aos senhorios os recursos que deveriam dar a eles um pouco de dignidade enquanto aguardam as sonhadas casas que os governos federal e estadual prometeram construir.
     As vítimas de janeiro de 2011 ainda não foram vingadas na Justiça. Nenhum ex-prefeito, ou ex-vereador, foi ao menos incriminado por terem patrocinado invasões em áreas de risco onde tantas pessoas morreram. Que não sejam punidos os que já mataram, então. Mas que se evite, ao menos, a desgraça das pessoas que estão à mercê da ganância dessa gente "industriosa" que se arranja tão bem, e tão insensivelmente diante da tragédia alheia.

Em tempo. Iniciado há mais de uma semana, o texto desatualizou-se. Não diante da denúncia oferecida, e que merece cada vez mais atenção das autoridades. Mas, com relação ao Eike. O coitado que estava entre os dez mais ricos do mundo não está nem mais entre os cem: Perdeu dinheiro, reduzindo sua fortuna a um terço. O milagreiro das letrinhas preciosas tem agora, "apenas" 11.4 bilhões de dólares, deixando a lista dos 100 mais ricos, que é liderada pelo mexicano Slim, da Televisa, com 78,4 bi. Na cobiçada lista figuram, agora, somente os brasileiros Jorge Paulo Leman, da Ambev, em 38.o lugar, com 18,9 bilhões; Dirce Camargo, da Camargo Corrêa, 62.o, com 14,2 bilhões e Joseph Safra, do Banco Safra, em 88.o, com 11,9 bilhões.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Capa do dvd do filme - obra de valor

  Rebelião em Vila Rica

     Acostumados a uma mixuruca de canais, e ainda assim com imagens ruins, quase sempre nos obrigando ao risco de subir ao telhado em busca de melhorar o sinal da tevê, a RCA Company veio para mudar a nossa forma de ver televisão em Teresópolis. Instalado o sinal em casa, coisa rápida e de custo razoável, passamos a receber os canais abertos com as novelas que tantos gostam, os canais de filmes, de lazer, de esportes... Tem até os canais da Justiça, ou da Assembléia, da Câmara e do Senado, com os homens de ternos e gravatas que mandam no país ditando suas leis e interpretando as sociedades que formamos ao longo de todas as nossas culturas, diversas, e aparentemente representadas.
     É coisa pra ver que não acaba mais, principalmente para quem tem o pacote cheio, que vai do 2 ao 100. É tanta opção, que tornando-se mais importante que a variedade de programas, o controle remoto faz refém o outro, e supostamente no controle dos dois, o dono do aparelho de tevê acaba vítima das vontades que não consegue controlar, tornando-se o amigo inseparável do aparelho que comanda o outro, passando a ter suas vontadades comandadas pelos dois.
    Foi me sentindo assim que passei bom tempo em frente a tevê no último domingo. Rodei do dois ao 100, de cima pra baixo e de baixo pra cima, de novo, não encontrando nada que quisesse ver, até que parei num filme que estava sendo exibido na tv Justiça, canal que, aliás, que já tinha me prendido a atenção no meio da semana, quando em uma hora de transmissão ao vivo da sessão do TSE, vi mais de duzentos candidatos terem seus recursos negados pelos ministros eleitorais.
     A decisão de parar no filme, vamos ao que interessa, me fez ganhar a noite. Era o "Revolução em Vila Rica", de José Pereira dos Santos. Tendo como cenário a cidade de Ouro Preto, o filme usa como argumento a Inconfidência Mineira, passando nos mesmos logradouros públicos e edifícios históricos onde ocorreu o evento, a trama que levou um grupo de estudantes da escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto rebelar-se contra a tentativa de transferência de sua faculdade para outra cidade, passando a conspirar contra os atos arbitrários da instituição.
     Vale ver o filme, e conhecer um pouquinho mais sobre a história do Brasil. É uma peça de ficção, mas baseada numa história real e pouco conhecida de todos nós.
     Xavier é o nome do líder estudantil do movimento e os seus companheiros de conspiração o poeta Gonzaga, que é noivo de Marília, também nome da musa inspiradora dos inconfidentes. Transferido o seu diretor, assume Furtado, que torna-se o algoz dos estudantes ao tomar diversas medidas contra os jovens, como o fechamento da República e o aumento das anuidades, além da cobrança dos atrasados devidos pelos estudantes, atos que provocam uma onda de revolta em Ouro Preto e a tentativa de invasão da faculdade de Minas e Metalurgia pelos universitários.
    Ao final, Xavier é morto e a rebelião tem fim com a renúncia do diretor Furtado. Contei o óbvio fim do filme. Mas, guardei segredo quanto às tramas, e recomendo a quem gosta de uma boa história procurar alugá-lo ou assistir quando for exibido numa nova sessão do cineclube.
Crânios de algumas das vítimas dos leões de Tsavo, no Quênia

  Sombra e Escuridão

     Em 1898, britânicos começaram a construção de uma ponte ferroviária sobre o rio Tsavo no Quênia. Durante os próximos nove meses, trabalhadores ferroviários tornaram-se alvo de dois leões comedores de homens. Eles eram enormes, medindo mais de três metros de comprimento. No início, os dois leões caçavam e sequestravam os homens das suas barracas, arrastando-os para o mato e devorando-os durante a noite. Mas logo eles se tornaram mais audaciosos, e matavam e se alimentavam de sua carne a poucos metros das barracas. A ferocidade e astúcia dos leões eram tão extraordinárias que muitos nativos pensavam que não eram leões, mas sim demônios, ou talvez a reencarnação dos antigos reis locais tentando repelir os invasores britânicos (a crença de reis mortos que renascem como leões era uma vez muito comum na África Oriental). Os dois monstros foram apelidados de "A Sombra e a Escuridão", e os trabalhadores estavam com tanto medo que eles fugiram as centenas de Tsavo. A construção ferroviária foi interrompida, ninguém queria ser a próxima vítima dos "leões do diabo".
     Foi aí que o engenheiro-chefe responsável pelo projeto ferroviário, John Henry Patterson, decidiu que a única solução era matar os leões. Ele estava muito perto de ser morto pelos leões, mas, finalmente, conseguiu atirar e matar o primeiro leão em 9 de dezembro de 1899, e duas semanas depois, ele conseguiu matar o segundo. Aquela altura, os leões haviam matado mais de 140 pessoas. Patterson também encontrou o esconderijo dos leões. Uma caverna perto da margem do rio Tsavo, que continha os restos mortais de muitas vítimas humanas, bem como peças de roupas e ornamentos. Esta caverna ainda existe até hoje e, apesar de muitos ossos terem sido desenterrados, é dito que muitos ainda permanecem no interior. Alguns especialistas afirmaram recentemente que os leões só comeram cerca de 35 das suas vítimas humanas. Mas isso não significa que eles não mataram muitos outros.