domingo, 15 de dezembro de 2013

Tempo de enchente em Teresópolis - as chuvas de novembro de 1978

A Reta, dos tempos das "grandes enchentes" dos anos 1980. Era ainda pior antes da obra do "Corte"
     Chegou o tempo das chuvas. E, de agora até abril, não se tem sossego mais. Quem vive nas beiras dos rios está em alerta para as águas que avançam pelas margens ocupadas. E, quem construiu ou mora de aluguel nos morros também está em perigo: um deslizamento de blocos de terra ou de pedra pode ocorrer a qualquer momento e atingir barracos ou sólidas construções de alvenaria.

     É o período, também, que a Região Serrana do Rio de Janeiro mais aparece na grande mídia. Toda semana, nos próximos quatro meses, vão passar por aqui os carros de reportagens das emissoras de tevê aberta, e dos jornais, e de outras mídias de grande alcance, até as internacionais. Mais uma vez, Teresópolis vai ficar famosa pelos seus morros ocupados irregularmente, pela desordem urbana, e as construções dentro dos rios vão tornar-se a referência da cidade que era para ser divulgada como a terra do Dedo de Deus, da sede da CBF, e dos cumes mais cobiçados pelos montanhistas.

     Isso remete a uma reflexão: precisamos entender melhor o nosso ambiente e encontrar um meio de evitar o vilipêndio da nossa imagem, tão sofrida nesses tempos de apreensão.

     Não seríamos vítimas de trombas d’água e inundações se agredíssemos menos o planeta, se não esgotássemos os seus recursos naturais com a nossa ansiedade pelo conforto e pelo consumismo desenfreado. Seríamos poupados se não fôssemos tão ignorantes em nosso comportamento com o meio em que vivemos e se tivéssemos, desde as primeiras agressões que a cidade sofreu, tomado as devidas providências contra os políticos inconsequentes que nos deram esse nosso presente.

     Poucos se dão conta. Mas, praticamente, todas as favelas de Teresópolis foram apadrinhadas por prefeitos, vereadores e deputados. Quem patrocinou as invasões na Granja Guarani nos anos 1950? Quem liberou a ocupação da parte alta do Rosário e do Perpétuo a partir dos anos 1990? Quem permitiu que um terreno da prefeitura na rua Mato Grosso virasse uma favela, criando nova área de risco e desvalorizando os imóveis próximos? E o Serrote, Pimentel, Vale da Revolta, Cambucá... Terreno do INSS, a Quinta Lebrão foi moeda política de deputados por longo tempo, o mesmo ocorrendo no bairro Castelinho. E a favelização que avança sobre o interior do município? Onde estavam os fiscais da prefeitura, onde estavam os mecanismos de fiscalização do judiciário, onde estava a sociedade organizada que viu a cidade empobrecendo sem se mobilizar?

     As chuvas fortes em Teresópolis ocorrem mais entre dezembro e abril, mas tivemos anos em que as enchentes anteciparam-se, atingindo a cidade já um mês antes. E uma delas aconteceu em novembro de 1978, provocando grandes prejuizos. “Petrópolis e Teresópolis arrasadas pelo temporal”, noticiou O DIA, em 25 de novembro daquele ano. As chuvas em Teresópolis começaram às 2h da madrugada do dia 23 e, no dia seguinte, o quadro era de desolação. Até um prédio, de quatro andares, na rua Fileuterpe, desabou. Considerada uma tragédia, marcando a cidade como área de risco, a ocorrência contabilizou 6 mortos e dezenas de feridos. Três anos depois, em abril de 1981, desabaria a serra no Garrafão, acidente seguido de vários outros, nos anos seguintes, na mesma estrada e nesse período critico do verão.

     Em 1983, aconteceu uma das maiores enchentes de Teresópolis, seguida de grande destruição, com quedas de barreiras, afundamento de ruas e rompimento de galerias, superando a recente tragédia de 1978. Acostumados a enchentes na Reta com água a 1m20cm, os comerciantes viram água a até 2m20cm de altura, cobrindo as carrocerias dos caminhões estacionados no canteiro central das avenidas Feliciano Sodré e Lúcio Meira. Carros passavam boiando pela Várzea, enchente que durou de 4h da tarde até as 6h da manhã do dia seguinte. 

     Muitas outras enchentes aconteceram antes de novembro de 1978. E, depois da "grande enchente" de 1983 também tivemos outras chuvas fortes, como a de 2002, por exemplo, quando duas barreiras deslizaram no Perpétuo, matando quatorze pessoas. Sem contar a tragédia de 2011, com mais de 400 mortos, e que já vai ficando na memória das pessoas como apenas mais uma entre tantas.

     Maiores ou menores, combinação da fúria da natureza com a insensatez do homem, as enchentes e as barreiras, há mais de uma geração tão conhecidas de todos nós, podem até não ser erradicadas, mas terão seus efeitos minimizados se houver uma política mais coerente de convivência do homem com o meio ambiente.

     Precisamos aprender com a história. Os políticos da década de 1950 nada fizeram para educar o povo; os da década de 1980 até incentivaram as invasões. Em Teresópolis - e isso é uma aberração! - as pessoas invadem os morros não apenas para morar, mas também para construir casas para alugar e explorar aqueles que precisam de moradia. Muita gente em Teresópolis usura o próximo dispondo-o em seus casebres de aluguel nas áreas de risco. E, quando ocorrem as tragédias, ainda vão à porta da prefeitura para serem recompensados. Pior é que são atendidos e só não conseguem o prêmio sempre porque os políticos não costumam cumprir as promessas que fazem. E, muito menos, entregar as casas que nunca fazem.

     Passamos por novembro, estamos em meados de dezembro, e ainda teremos mais de 120 dias de apreensão. Quem mora em lugares de risco pouco pode fazer para evitar a morte, a não ser atender o alerta da sirene quando ela tocar. Mas, podemos, e devemos nos conscientizar de que algo precisa ser feito. A solução existe e vai além das promessas de residências para os desabrigados, ou de palestras que ensinam como evadir-se de casa em caso de chuvas fortes.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Parque Nacional da Serra dos Órgãos

Jornal anuncia risco que o Parque correu, em 1958

Criado pelo Decreto 1822, de 30 de novembro de 1939, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos cresceu de tamanho, tornando-se uma das maiores áreas de proteção ambiental do país. É também um dos mais importantes, um dos mais visitados e um dos mais conhecidos parques brasileiros. Espécies raras da fauna e da flora estão aqui protegidas, algumas endêmicas da região, inclusive pouco conhecidas, o que provoca a curiosidade de cientistas, principalmente estrangeiros, e estudantes de várias universidades que buscam Teresópolis para sua formação.

O ParNaSO guarda também monumentos geológicos de grande interesse para a humanidade. Maravilhosa cadeia de montanhas, que compõe a Serra do Mar, nossa cordilheira provoca a ambição dos aventureiros desde meados do século 19, segundo relatos dos jornais de época.  A curiosidade sobre os seus cumes determinou até o início da prática do alpinismo no Brasil: Desbravado em 1912 pelos teresopolitanos José Teixeira Guimarães, Raul Carneiro e os irmãos Acácio, Américo e  Alexandre Oliveira, o Dedo de Deus tornou-se o símbolo do montanhismo nacional. Uma das escaladas mais escabrosas, e temida pelos que incomodam-se com a altura, a Agulha do Diabo está entre as dez montanhas mais cobiçadas do mundo. Composto pelo Capucho, o Nariz, a Verruga, o Queixo e a Cruz, e de mais fácil acesso, o Perfil do Frade é outro que encanta a muitos. Mais democráticas ainda, as caminhadas no Parque tornaram-se lazer obrigatório para os jovens da cidade. As trilhas do Sino, da Primavera, o Cartão Postal, o mirante Mozart Catão... A travessia Petrópolis-Teresópolis é conhecida no Brasil inteiro e virou referência para quem gosta de caminhadas.

Passados aqueles primeiros anos de sua formação, quando Teresópolis viu-se na iminência de perder a importante reserva florestal diante das pendengas judiciais ocorridas até o ano de 1960, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos alcançou a maioridade com sossego e, sucessivamente, vem sendo cada dia mais abraçado pela consciência ambiental. Recentemente, em setembro de 2008, quase dobrou de tamanho, pulando dos 10.527 hectares dos anos 1950 para 20.024 hectares, e isso deve-se muito ao ex-Ministro Carlos Minc, que ampliou a nossa área de proteção para os limites dos municípios de Magé, lingando-o à reserva do Tinguá.

Criado pelo presidente Getúlio Vargas, durante período de excessão democrática, entre 1930 e 1945, o Parque Nacional compunha-se de uma área de 8.450 hectares e foi ampliado em 1.500 hectares no ano de 1950, pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, ato confirmado em 1953 pelo presidente eleito Getúlio Vargas, quando teve anexada grande área de terras da fazenda Garrafão, que compreendia as matas do Escalavrado, Dedo de Nossa Senhora, Dedo de Deus, Peixe e Frade, ampliando seu tamanho para quase 11.000 hectares, impedindo que os sopés destas montanhas se tornassem parte da urbe.

Conquista de presidentes, ambição de cientistas e sonho de teresopolitanos, brasileiros que ousaram pensar ecologicamente quando esse tema não estava ainda nas mesas de debates, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos deve sua existência muito aos seus diretores. E o primeiro deles, Gil Sobral Pinto, gostou tanto do lugar que foi seu administrador por cerca de onze anos, entre 11 de setembro de 1940 e 11 de abril de 1951. Hoje, é diretor do ParNaSO o biólogo Leandro Goulart, que assumiu em 2011, substituindo Ernesto Viveiros de Castro, que entrou no lugar de Bernardo Issa, em 2003. Alguns mais, outros menos, todos contribuiram muito para que a unidade de conservação fosse implantada, e mantida, devendo-se a eles algumas conquistas não obtidas por outras áreas de proteção. No box, a relação dos administradores do Parque.

Apresentado pelo engenheiro agrícola Jose A. Vieira, um estudo publicado cerca de 60 anos atrás, define que o Parque Nacional da Serra dos Órgãos tinha como objetivo a expansão econômica, turística e científica, servindo ainda para proteger os mananciais, manter as florestas e preservar as terras à jusante contra os efeitos da erosão das enchentes.

Pouco mais de dez anos depois de criados os primeiros parques nacionais do país, José Vieira justifica a inédita iniciativa pela possibilidade de sua exploração turística, sendo os parques uma "fonte higiênica, recreativa e de vitalização econômica". O estudo da flora, da fauna e da geologia regionais, além da preservação dos monumentos geológicos, eram também outras justificativas. Publicado na revista Informação Agrícola em 1955, o trabalho traz informações preciosas sobre a região da Serra dos Órgãos, já muito visitada por naturalistas e botânicos de renome, mas ainda carente, àquela época, de um trabalho metódico e completo sobre a sua flora e fauna. Ver box.

O Parque Nacional da Serra dos Órgãos em 1955

Oberservações já efetuadas revelam que a flora a não ser na periferia e mesmo aí em áreas diminutas, está ainda totalmente isenta  de promiscuidade de plantas exóticas. A floresta maior do Parque apresenta o aspecto comum de vegetação serrana dessa parte do Brasil, isto é, nela predominam as espécies das famílias das leguminosas, das lauráceas, das mirtáceas, das meliácias, das bignomiáceas sapotácias, solanacias, rubiacias, etc. Sobressaem, assim, as cássias, os cedros, as cangeranas, as canelas, os ipês, as jaboticabeiras do mato, os miricis, os jequitibás, as quaresmeiras, etc. As bromeliáceas formam típicos maciços de grande extensão sobre a rocha viva.
A fauna, afugentada para o recesso das montanhas e das matas, pela continuada exploração de pedreiras, e pela construção das estradas Itaipava-Teresópolis e Rio-Teresópolis, vai retornando, a despeito da deficiência da fiscalização de guardas florestais. Rica em insetos, e sobretudo notável na abundância de lepdópteros (borboletas noturnas e diurnas), coleópteros, himenopteros (abelhas e marimbondos, etc), dípteros (moscas), himípteros (cigarras), ortópteros (gafanhotos), etc. Relativamente pobre em ofídios, apresenta, entretanto, relativa abundância de jararacas e grande variedade de batráquios.
A ornito-fauna, ainda pouco estudada, é representada por sanhaços, tico-ticos, andorinhas, etc, e por pássaros entre os quais sobressaem os canários e os sabiás "laranjeiras" e "Una", tidos os melhores cantadores do Sul do Brasil. As aves mais comuns são as capoeiras, os jacus, os nambus e diversas pombas (rolinha e juriti). Quanto ao macuco diz-se existir nas matas menos atingíveis. Os macacos são vistos, às vezes, até na sede do Parque. Entre os quadrúpedes, destacam-se os gatos e cachorros do mato, iraras e menos comumente a maracajá. Os tatus são muito abundantes. A paca é principalmente atraída pelas roças do milho do Vale do Jacó. O encontro de antas nos banhados de altiplano do Parque sugere reintrodução desse mamífero, o maior da fauna americana.
José A. Vieira.

DIRETORES DO PARQUE NACIONAL:
11.09.1940, Gil Sobral Pinto;
07.06.1942, Neoarch da Silveira Azevedo;
19.09.1942, Wanderbilt Duarde de Barros;
13.05.1943, Gil Sobral Pinto;
12.04.1951, Altamiro Barbosa Pereira;
05.06.1951, Quintino Dourado Maranhão;
02.10.1951, Manoel Vergosa G. Fraga;
08.02.1955, Dael Pires Lima;
24.10.1956, Elyowald Chagas de Oliveira;
29.05.1975, Tarcisio Lima Aragão;
04.07.1975, Antonio Domingues Aldrighique;
04.12.1975, Cesar Lamenza;
09.04.1977, Mário D'Amato Martis Costa;
01.10.1991, Oscar Rensburg;
25.11.1991, Kurt Trennepohl;
28.05.1992, Francisco Neves de Carvalho;
09.10.1992, Jovelino Muniz Andrade Filho;
Setembro de 2003, Bernardo Issa;
Dezembro de 2003, Ernesto Viveiros de Castro;

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O guarani José de Alencar, o Paquequer e a história recente de Teresópolis


"A torrente passou rápida, esmagando tudo que se opunha à sua passagem"
Um dos mais bem sucedidos romances brasileiros, referência na literatura indianista, O Guarani foi ambientado às margens do rio Paquequer, em Teresópolis. Publicado em 1857, o livro conta a história do índio Peri e da branca Ceci, em quatro partes distintas: Os aventureiros, Peri, os Aimorés e A Catástrofe, esta última, relatando uma grande enchente que alagou a várzea e provocou enorme destruição, “esmagando com o peso tudo que se opunha à sua passagem”.

Mais de 150 anos depois, e ocorrida na Região Serrana a tragédia imaginada por José de Alencar em seu trabalho, a Secretaria de Cultura elaborou um projeto de resgate da memória local, visando reconhecer, e trazer para o nosso ambiente, o importante romance, divulgando o escritor, e provocando o olhar do brasileiro para o nosso rio - hoje degradado e tão carente de atenção.

Embora alguns tentem tirar de Teresópolis o cenário dessa importante obra literária, sugerindo que o escritor tenha se inspirado no rio Paquequer de Sumidouro, curso d'água que nasce na serra da Soledade, não há dúvida de que o autor de O Guarani refere-se ao nosso Paquequer em seu livro e a não a outro rio. O intróito do romance deixa claro isso - Serra dos Órgãos! - e, ao longo do texto, outras características geográficas da região são claramente retratadas, como nossas cascatas, a Várzea e a própria distância que percorre o rio.

“De um dos cabeços da Serra dos Órgãos desliza um fio d'água que se dirige para o norte, e engrossado com os mananciais que recebe no seu curso de dez léguas, torna-se rio caudal. É o Paquequer: saltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma serpente, vai depois se espreguiçar na várzea e embeber no Paraíba, que rola majestosamente em seu vasto leito...”

Contemporâneos de José de Alencar também ambientam em Teresópolis o romance. Em pesquisa na Biblioteca Nacional, encontramos um exemplar do jornal O Globo, de 10 de janeiro de 1876, menos de 20 anos da publicação do romance, onde o escritor M.P. se refere ao rio da nossa cidade como cenário do Guarani.

“À entrada da povoação de Teresópolis o viajante ouve o sussuro cadente e monotono das aguas de um rio, que espreguiça-se indolente sobre lençóes de arêa. É o Paquequer. Foi as margens desse novo Hyppocrene que o Alencar escreveu o immortal Guarany. Foi ahi que elle ideou aquela Cecy tão bella, tão meiga, tão do céo”.

Repórter de seu tempo, e tão útil à nossa memória, articulista que deixou apenas suas iniciais no texto providencialmente inserido naquele jornal extinto ainda no século 19, M.P. traz outras considerações fantásticas sobre a nossa região, freguesia que já sonhava com o trem e que seria transformada em cidade 15 anos depois. O visitante que apaixonou-se por Teresópolis guardou na memória através da sua carta os nomes de hotéis, de pessoas, de lugares e até relatou a visita do Imperador Dom Pedro II, que por aqui também passou no mesmo período de sua estada.

“Garanto-te meu amigo, que quando li O Guarani tive vontade de ser o Pery daquela Cecy, e tu? Estou em Theresopolis. A leitura deste nome te parecerá que trato de uma cidade, pois tu hellenista de força sabes a significação de Theresopolis; enganas-te, é um arraial ligeiro fugitivo, bello, pittoresco, onde se vive, onde se tem pulmões emfim... Não é só o tisico que aqui encontra condições favoraveis à sua existencia: muitos outros enfermos assaltados por diversas molestias tem tambem encontrado restabelecimento rapido e completo. O Beri-beri desapparece com alguns mezes de permanencia neste abençoado clima; as intoxicações palustres, tão frequentes no Rio de Janeiro, acham também aqui o remédio mais eficaz... Não imaginas como o meu coração se confrange ao dizer adeus a esses valles, a estas montanhas, para ir buscar nessa Côrte impura os recursos para minha subsistencia. Como é diverso o viver. Aqui o borborinho das cascatas, lá o borborinho das paixões; aqui o silencio das mattas, lá o tumultuar incessante de uma sociedade macilenta e egoista. Oh! si eu podesse nesse doce retiro desfructar em companhia de minha prole os dias que tenho ainda para caminhar na senda alpestre da vida, eu considerar-me-hia como o mais ditoso dos homens”.

Passada a tragédia, guardada a singela lembrança de 1876 no registro do acidental repórter, e ainda inconsciente o teresopolitano do relacionamento amistoso que deve ter com a natureza e a memória, precisamos inserir o romance O Guarani na história municipal. Urge também a necessidade de pregarmos um novo olhar para o importante escritor indianista que ignoramos tanto.

“A torrente passou rápida, veloz, vencendo na carreira o tapir das selvas ou a ema do deserto; seu dorso enorme se estorcia e enrolava pelos troncos diluvianos das grandes árvores, que estremeciam com o embate hercúleo. Depois, outra montanha, e outra, e outra, se elevaram no fundo da floresta; arremessando-se no turbilhão, lutando corpo a corpo, esmagando com o peso tudo que se opunha à sua passagem...”

Lembrada essa semana na secretaria Estadual de Ambiente, para onde fomos em busca de apoio ao nosso projeto de resgate da memória local, a descrição de “A Catástrofe” provocou no secretário Carlos Minc resposta imediata. “Vamos construir esse monumento ao Guarani nas margens do rio, e será na Cascata do Imbuí, no principal parque fluvial do Paquequer. Precisamos tributar ao escritor José de Alencar a homenagem proposta pela secretaria de Cultura de Teresópolis e que a serpente de água que ele descreveu em seu livro nos ajude a entender melhor as vontades da natureza e obrigue o teresopolitano a um melhor convívio com o seu poético rio”.

A proposta foi feita, e uma promessa também. É promessa de político, tudo bem. Mas de um político que costuma cumprir a palavra, principalmente quando se trata de Teresópolis, cidade que tanto admira.

Em agosto de 2008, apresentei ao Carlos Minc - que prefaciou o livro SOS Paquequer - a idéia de um parque municipal em Teresópolis. Ministro do Meio Ambiente, ele prometeu apoiar a iniciativa e, em julho de 2009, com o seu empenho pessoal, o Parque da Tartaruga era inaugurado. Agora, novo pedido foi feito ao amigo e o memorial ao Guarani proposto pela secretaria de Cultura já tem até data para ser mostrado ao público: “será inaugurado junto com as obras dos parques fluviais do Paquequer, Príncipe e Imbuí, e fará parte do mirante da Cascata do Imbuí”, garantiu.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

   Acidente de trem no túnel dos Órgãos

Túnel da Beira Linha, em direção ao Alto

     Em exposição nos jardins da Casa da Memória Arthur Dalmasso, um trenzinho vem provocando a atenção de quem passa pelo local, inclusive de alunos que vão em grupo ao importante espaço cultural para conhecer melhor a história do trem da Estrada de Ferro Teresópolis.

     Embora já tenha parado de circular há mais de 50 anos, o trem ainda está na memória do teresopolitano e, nos mais novos, desperta grande interesse. Contada de forma lúdica, nos painéis que revestem os cenográficos vagões, a história do trem revela como ele foi chegando, aos poucos, às estações de Magé, de Guapimirim e da Barreira, mostrando como foi difícil a construção da estrada e como era, também, difícil a viagem ao Rio de Janeiro, composta de baldeações entre os trens, sem contar a passagem pelo mar, travessia feita em improvisadas embarcações.


     Entre os painéis, um conta a história dos acidentes da nossa estrada de ferro, todos eles ocorridos a partir da encampação da EFT pelo governo federal, em 1919, justamente quando a empresa do modesto empreendedor José Augusto Vieira já se mostrava deficitária e carente de investimentos. 


     Foram vários acidentes, destacando-se o descarrilhamento de março de 1930, na serra, quando morreram 8 pessoas, e o de março de 1940, quando outros 16 passageiros perderam a vida num choque de trens. Um curioso acidente, de uma vítima apenas, no entanto, é o caso que pretendemos contar hoje. Ele ocorreu no túnel da Beira Linha e a memória dele teria sido perdida não fosse uma entrevista do maquinista Pedro de Jesus, publicada no livro “A Estrada de Ferro Therezopolis”.


     “Antônio Virgínio, em substituição ao seu colega, o maquinista Innocencio Virginio, conduzia a máquina N.o 1, com destino à Estação da Várzea, trazendo dois carros que deviam transportar os passageiros das 4h55 da tarde, quando o eixo da locomotiva partiu-se, indo, assim, a composição, com a velocidade em que andava já fora dos trilhos, de encontro a uma barreira, imprensando o infeliz empregado da ferrovia, que teve a perna quebrada em duas partes; a direita bastante magoada, e a barriga e o braço esquerdo horrivelmente queimados pela água fervendo que se derramava da caldeira”.


     Publicada no jornal “O Therezopolis” do dia 23 de dezembro de 1928, a nota dá conta do primeiro de uma série de acidentes com vítimas fatais envolvendo os trens de Teresópolis. Tragédia pessoal da família Virgínio, envolvendo Antonio e Inocêncio - um tinha substituído o outro na tarefa de trazer a locomotiva da estação do Alto à Várzea -, o acidente aconteceu na tarde de uma sexta-feira, dia 14, entre Araras e a Várzea”. Conhecido como o acidente do túnel, o jornal não informa se ele aconteceu próximo ou dentro do túnel, nem, se ambos com o sobrenome Virgínio, qual seria o grau de parentesco entre Innocêncio e Antônio.


     “Eram irmãos”, informou o maquinista Pedro de Jesus. Pedro contou ainda sobre um inusitado episódio, ignorado, inclusive, pela imprensa, que envolveu outra máquina da EFT. “Em 1945, aconteceu um acidente próximo à ponte do Garrafão. O maquinista Antonio Alves de Abreu, quando foi engatar a segunda cremalheira, “soltou e espigou” o maquinista Paulo Bragança, que morreu imprensado contra uma pedra. Eles estavam trazendo serra acima uma máquina plana, empreitada que exigia três cremalheiras”. Segundo Pedro, a locomotiva plana pesava em torno de 38 toneladas e precisava ser dividida em duas partes para facilitar o transporte. - “Duas máquinas cremalheiras traziam a parte mais pesada e uma terceira máquina, a parte de trás da locomotiva. Na ponte, tinha que passar uma cremalheira por vez, por causa do peso, foi quando aconteceu o acidente, ao refazer o engate”, informou Pedro, que contou ainda como uma outra cremalheira se perdeu na serra. - “Essa cremalheira parou na caixa d'água para abastecer. Deixaram a trava em posição errada e quando a água encheu o tanque, a pressão fez liberar o freio, desandando a máquina, que estava solteira, sem vagões. A tripulação não tinha o que fazer, senão pular da máquina que já ganhava velocidade. E a empresa não tinha como recuperá-la. Custaria uma fortuna guinchar a cremalheira do abismo, onde está até hoje”.


     Um dos sítios históricos mais importantes da Estrada de Ferro Therezopolis, e muito representativo para a memória do trem, bem tombado pela municipalidade, poucas informações existem sobre o Túnel da Beira Linha, originalmente chamado “Túnel dos Órgãos”. Lembrei de contar esse episódio do acidente na coluna de hoje mais para mostrar duas fotografias que ganhei de presente essa semana do leitor Fernando Luiz Barreto. Na verdade foi um pretexto que encontrei para compartilhar essas imagens inéditas, que mostram a entrada e a saída do nosso túnel da Beira Linha, coisa que poucos tiveram a curiosidade de registrar.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

   A história da Festa do Produtor Rural de Teresópolis

     Começa nesta quarta-feira, dia 23, a Festa do Produtor Rural de Teresópolis. Organizada pela prefeitura, a Feport ocorre em Albuquerque desde 1989, quando foi aberto o Parque de Exposições. Dá c
Feira de 1951, nos salões da prefeitura
ontinuidade à Festa do Produtor Rural criada dez anos antes, em Bonsucesso, durante o governo Pedro Jahara. Acontecia desde 1980 em Vargem Grande e era, até então, feita pela secretaria municipal de Educação.

     Segundo a prefeitura, a Feport está em sua edição número 30. Mas, poucos sabem, antes de Pedro Jahara que a iniciou, de Celso Dalmaso que a manteve, e de Tricano e os governos que o sucederam guardando o formato atual, a “festa do produtor” de Teresópolis vem de tempo mais distante.

     Chamada “Feira de Theresópolis”, a nossa primeira festa agropecuária ocorreu em 1855, na praça da “Bragantina”, hoje bairro do Alto. Realizada nos dias 17, 18 e 19 de junho, a “feira” reuniu mercadorias de outras regiões, como tecidos e produtos da indústria nacional, servindo para a recém-criada freguesia mostrar os seus bois gordos, as vacas leiteiras, cavalos de raça e os porcos de engorda que alcançavam várias arrobas, revelando ainda a agricultura local, com o café, batatas, grãos e farinhas de mandioca, destacando-se a couve-flor de Teresópolis,  hortaliça que se tornaria a base da produção agrícola no município mais de cem anos depois.

     No auge da guerra mundial, quando os pracinhas de Teresópolis lutavam nos campos da Itália, e enfraquecia-se o governo do ditador Getúlio Vargas, foi reorganizada a nossa festa do produtor rural. Denominada como “1a. Mostra Agrícola e de Pequenas Indústrias”, serviu para comemorar os 53.o  aniversário do município, e o terceiro ano de governo do prefeito Lauro Antunes Paes de Andrade, interventor que mais durou no cargo - de julho de 1941 a fevereiro de 1945.

     A feira trouxe ao município que estava em festa autoridades dos governos estadual e federal. As delegações de políticos chegaram na estação da Várzea, de onde partiram em caravana para a praça de Santa Teresa, onde após a missa, foi feito um comício seguido de desfile das escolas municipais, onde destacaram-se, segundo a imprensa, “os cartazes com dísticos de saudações aos dirigentes do país e ao chefe do Executivo local”. Foram realizados ainda jogos de futebol e exibições de bandas de música.

     Embora a festa de 1944 pareça mais um desfile de políticos e de veneração à ditadura, a notícia dessa exposição relata a pujança da produção agrícola naquele período de racionamentos e estagnação econômica. Segundo relato do jornal Gazeta, nesse tempo Teresópolis produzia milho, abóboras, batatas doce, roxa e inglesa, inhame, couve-flor, cenoura, alho, café, tomate, mandioca, soja, arroz, vagem, quiabo e amendoin. E, ainda, além de aves e animais de vários portes, palmas e copos de leite, caqui, cana, repolho, nabos roxo e japonês, mamão, abobrinha, ervilha, chá, fumo, lima da pérsia, banana, batata baroa, laranja bahia, cidras, grape-fruit, mamona, xuxu, alface, morangos e os feijões preto, enxofre, branco e manteiga.

     Substituindo Paes de Andrade, entre fevereiro de 1945 e outubro de 1947, os interventores Roger Malhardes, Agnaldo de Figueiredo, Andrade Netto, Américo Viveiros e Fernando Pimentel não deram continuidade a essa feira. Ela voltaria em julho de 1947, depois da assunção à prefeitura do jovem José de Carvalho Jannotti, de apenas 31 anos. Técnico agrícola trazido a Teresópolis para acabar com a “praga do marmelo”, e quem tinha organizado a feira de 1944, onde se projetou, Jannotti criou a “Exposição Agrícola e Industrial de Teresópolis”, que foi feita até 1958, ocupando o pátio e os corredores e salões da prefeitura.

     Pouco lembrada hoje, a “exposição” iniciada por Jannotti em 1947 talvez seja a mais legítima de todas as festas de produtor rural realizadas em Teresópolis. As imagens guardadas pela memória municipal revelam a importância da agricultura em meados do século passado e a efetiva participação da indústria, do comércio e dos agricultores. Nabos de 18 quilos, inhames e batatas enormes, frutas e flores exóticas, mandiocas de três metros de comprimento... Móveis, máquinas, minérios, doces... A exposição era voltada para a agricultura e a indústria, e provocava o interesse da população em geral.

     A Feport dos últimos vinte anos pra cá agrada ao grande público. Mas, afastada cada vez mais do agricultor e do empresariado local, e atendendo a outro público alvo, é feita num modelo que provoca o desinteresse do industrial e do produtor rural. É um formato que contribui pouco para o desenvolvimento do município, sem contar o prejuízo que traz à memória local. Afinal, não fossem as festas de 1855 e as de meados e final do século passado, não teríamos desses períodos registros tão fiéis da história da nossa agricultura, e da indústria e comércio.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Coronel Claussen e sua moto, aos cem anos

Henrique Fernando, o Coronel Claussen

Atropelado por uma motocicleta, na avenida Delfim Moreira, morreu aos 100 anos e 11 dias de idade, em 14 de maio de 1938, o Coronel Henrique Fernando Claussen. Apesar da idade, tinha memória invejável e grande robustez física, causando seu passamento enorme consternação na cidade.
O “velho Claussen” foi vereador em vários períodos entre 1892 e 1913, quando a chefia do Executivo Municipal era exercida pelo presidente do Legislativo e, mudada a política municipal com a criação da prefeitura, apesar da idade, mantinha sua liderança política sempre considerada pelos aliados e adversários.
Agricultor, negociante, e chefe político, Claussen abriu o traçado primitivo da estrada Teresópolis-Itaipava, regulamentou a cobrança de impostos municipais, e criou o primeiro código de posturas do município.
Repórter consciente do desenvolvimento de Teresópolis, cidade que viu surgir, Claussen assistiu o retalhamento das terras de George March, a partir de 1853, quando aqui chegou aos quinze anos de idade, e participou de tudo que aconteceu na cidade por quase um século. Foi testemunha ocular da nossa pré-história. Viu surgir junto com a freguesia as igrejas de Santo Antônio e Santa Teresa, em 1855, e participou dos movimentos que moldariam o município, emancipado em 1891. Sonhou com muitos outros a chegada do trem, viu a mata virgem dar lugar às lavouras, ajudou a abrir ruas e estradas e assistiu, até mesmo, serem construídos os primeiros sobrados da emergente cidade que o acolheu.
Filho mais velho de Jacó e Carolina Claussen, Henrique Fernando veio para Teresópolis com a mãe viúva e os irmãos Guilherme, Adelaide e Henriqueta, mudando da Fazenda Santo Antônio, propriedade do Barão de Mauá em Itaipava, para a Posse, que pertencia ao Tenente Joaquim Paulo de Oliveira, suposto filho de Tiradentes.
Casado com Maria de Oliveira, que era filha de Francisco Paulo, irmão de Paulino José de Oliveira (um dos  “netos de Tiradentes”, com quem sua mãe unira-se em segundas núpcias), o dinamarquês Henrique Fernando teve oito filhos: Mariana Carolina, Henrique Filho, Cristina, Luisa Maria, Laura, Elvira, Fernando Henrique e José Henrique. Estes, casaram-se com membros de diversas outras famílias, entre elas os Turl, Féo e Silva. E, através de seus irmãos - Guilherme, Adelaide e Henriqueta, além dos irmãos por parte de mãe, Paulino José, Alexandre Paulino e Cândida - os Claussen ramificaram-se em outras famílias, fazendo surgir numerosa descendência.
Menos de um mês após sua morte, o “Senhor Hendrik Fer-dinand Clausen”, Coronel da Guarda Nacional do Brasil foi homenageado pelo seu país de origem, a Dinamarca, com uma medalha em ouro maciço, tornando-se membro da Ordem da Cidadania Dinamarquesa. “Em 8 de junho de 1938, Sua Majestade o Rei Christian X da Dinamarca condecorou Hendrik Ferdinand Clausen. De origem dinamarquesa, Hendrik Ferdinand Clausen celebrou seu centésimo aniversário no dia 3 de maio de 1938. Foi um dos pioneiros e fundador de Teresópolis, cidade de veraneio do estado do Rio de Janeiro, Brasil, onde, por muitos anos exerceu o cargo de chefe do Executivo. Era normalmente chamado de ‘o dinamarquês fundador da cidade’. Em sua longa existência, prestou respeito ao seu país de origem, e deve ser considerado um homem que honrou a Dinamarca no estrangeiro”.
Organizada pelo Serviço de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da Secretaria Municipal de Cultura, a prefeitura promoveu em 2010 , na Casa de Cultura Adolpho Bloch, uma bela exposição em homenagem à “Claussen, o Patricarca da Política de Teresópolis” e, pela primeira vez, foram vistos documentos e fotografias da família, remetendo a nossa memória aos primórdios da cidade de Teresópolis. Além dos acervos iconográficos, foram mostrados objetos e documentos pessoais, acumulados nos mais de cento e cinqüenta anos da fazenda do Imbuí, a “Casa dos Sete Cedros”, propriedade de Henrique Fernando Claussen, constituindo registros fundamentais para o resgate da memória de Teresópolis. A exposição foi idealizada e projetada pela professora e doutora em artes, Nilza de Oliveira, e seu irmão, professor de economia, Henrique Fernando de Oliveira, ambos bisnetos do Coronel Claussen e descendentes de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
A saga dos Claussen, e a participação da família na formação da cidade, merecem pesquisas mais aprofundadas. A importância, mesmo, da “Casa dos Sete Cedros” para a memória local é tão relevante que a secretaria municipal de Cultura está ultimando os detalhes para o tombamento do imóvel, que fica no Parque Imbuí. É nesta casa tão importante, onde ocorreram decisões que mudaram os destinos de muita gente, que também morou o poeta Olegário Mariano. Aí, a sede da velha fazenda de Claussen transforma-se na “Toca da Cigarra”, imóvel que pertence à família Benchimol e que em suas paredes bem ilustradas, e no mobiliário antigo, e no zelo que recebe dos atuais proprietários, continuam guardando bonitas histórias da Teresópolis de antigamente.

sexta-feira, 5 de abril de 2013


A velha política da promessa de casas em Teresópolis

Coluna WanDerLey deste sábado resgata a memória da política
     Em janeiro de 1962, quando era prefeito Omar Magalhães, a prefeitura anunciou que construiria no bairro São Pedro 40 unidades habitacionais destinadas às famílias carentes. À época, além da falta de residências para os operários, inclusive os funcionários municipais, as favelas estavam proliferando no bairro do Alto e remover as construções irregulares era necessário. Antes do final daquele ano, além de entregar as moradias, o prefeito inaugurou também o bairro dos Funcionários - que tinha o seu nome, “bairro Omar Magalhães” - dando início à ocupação da pouco habitada Vidigueiras, atual São Pedro, o maior bairro popular da cidade.
     De lá pra cá, a cidade conviveu com vários outros prefeitos - oito eleitos, e alguns substitutos - e nunca mais se construiu casas populares. No seu período à frente da prefeitura, entre 2003 e 2008, o ex-prefeito Roberto Petto chegou a construir cinquenta casas no Matadouro. Mas, essas nem contam porque “andaram caindo” antes mesmo de serem habitadas e foram interditadas - hoje, de forma improvisada, algumas estão ocupadas por invasores do próprio bairro. Tem ainda as casas da fazenda Fonte Santa, construídas pelo governo do Estado para as vítimas da tragédia do Perpétuo, em 2002. Mas, fizeram só isso, e todas custando um dinheirão.
     No entanto, apesar de não terem feito casa alguma, os políticos que mandaram em Teresópolis nestes últimos 50 anos, ou não se preocuparam com as moradias populares, ou colocaram as casas como suas principais promessas eleitoreiras. Deve ser pelo exemplo de Omar Magalhães, que virou até nome de bairro e acabou perdendo a homenagem, pouco se sabendo nos dias de hoje sobre a sua capacidade administrativa e, principalmente, do seu hábito de cumprir o que prometia. Omar fez as casas que disse que faria, e ainda abriu um bairro popular, viabilizando a realização do sonho da casa própria para muita gente.
     Depois de Omar, veio Flávio Bortoluzzi, prefeito por duas vezes, entre 1963 e 1966 e, depois, entre 1971 e 1972. De 1967 a 1970, foi prefeito Waldir Barbosa e, de 1973 a 1976, governou a cidade o ex-prefeito Roger Malhardes. O sucessor do prefeito das Casas Populares gostava de arte e fez, entre outras coisas, o Festival de Cinema Brasileiro, elevando Teresópolis à categoria de “Cidade dos Festivais”. Waldir Barbosa, que era médico, inaugurou o Hospital das Clínicas e fez muitas escolas, e ainda outras coisas. Malhardes já tinha feito pontes no seu mandato de 1951 a 1954 e aproveitou para fazer outras tantas ligações de margens, e também outras coisas, entre elas, o CEROM, que guarda a memória de seu nome, no bairro São Pedro.
     Os antigos, e os relatos deixados através da imprensa, informam que Flávio, Waldir e Malhardes foram bons prefeitos. Mas, essas fontes de informação ignoram que eles tenham se preocupado com a construção de casas populares. Não fizeram, nem teriam feito promessas.
     Mas, no governo Pedro Jahara, entre 1977 e 1982, foram prometidas muitas casas populares. No governo seguinte, de Celso Dalmaso, outras tantas também foram prometidas. A quantidade mais utilizada por esses dois prefeitos, que ficaram na prefeitura seis anos cada, foi de 500 casas. Vira e mexe, a imprensa anunciava as sonhadas moradias, nunca construídas.
     Para não ser injusto, o Celso até fez algumas destas casas. Construiu doze no bairro Caleme, para onde levou algumas famílias que estavam morando numa favela que surgia próximo ao Soberbo.
     Em 1988, terminado o período da “política velha”, e iniciado o período da “política brava”, sucedeu Celso o prefeito Tricano. Este, além de muito prometer, fez do não cumprir sua segunda especialidade. Valia o escrito e, valendo-se daqueles que com ele escreviam, o então bicheiro conseguiu anotar em Brasília recursos para a construção de cerca de 200 casas populares em Teresópolis. Era um prognóstico e tanto. Mas, como também estava prognosticado, o prefeito não era de fazer e, ruim de apontamento, não fez as casas que, exigidas na prestação de contas, o obrigaram a escrever que as tinha feito. Aí, para fazer valer o escrito, pegou as doze casas do Celso e fez delas vinte e quatro, construindo outras dezenas no morro do Tiro e no Matadouro, não chegando a uma centena, ficando distante o número acertado.
     Para ser justo, e não parecer que o prefeito não pagou pelo pecado cometido, sabe-se que ele foi processado pela irresponsabilidade, improbidade administrativa que o incomodou bastante nos anos seguintes. Mas, nada que o tirasse da eleição que escolheu o sucessor do prefeito que o sucedeu. Nem que o impedisse de torná-lo o escolhido, eleito novamente, e justamente, com os votos de quem poderia estar morando nas casas que ele não construiu - prova de que a promessa vale mais que a realização. Aliás, essa última palavra era outra promessa sua, por ironia, marca do seu segundo governo.
     Agora, passados quase dois anos das chuvas de janeiro de 2011, guardamos registros mais recentes do quanto os políticos continuam enganando os eleitores. Logo que aconteceu a tragédia, o governo anunciou que entregaria as casas nos “próximos meses”. E, passados os meses próximos, foi ficando cada dia mais distante a data para o cumprimento da promessa feita. Seria “antes das eleições”, assim que “passada a eleição”, “no início do ano”, “no meio do ano” e, chegado ao fim o ano de 2012 esse prazo também foi descumprido, não se tendo previsão alguma do início das obras.
     E não é só prefeito que engana o povo não. O governador e seus secretários estaduais andaram por aqui prometendo casas, sem contar os outros tipos de mandatários que fizeram da promessa de casas populares um negócio eleitoral. Na última campanha, por exemplo, teve um deputado candidato a prefeito que prometeu construir 5 mil casas populares caso ganhasse. No pleito em que o prefeito campeão em promessa de casas mentiu ao eleitor dizendo que podia ser candidato, e com a sua mentira conseguiu ser o mais votado, e outros mentirosos o imitaram tão bem no discurso da promessa de casas, teve até candidato a vereador, destes que só sabem fazer moções e indicações legislativas durante o mandato,  que em busca de enganar o povo, afirmava em seus carros de som de campanha ter feito lei que obrigava a prefeitura a construir casas com dinheiro do orçamento municipal.
     Olhando o passado, vemos a memória mostrar que a história está repleta de promessas não cumpridas e, incrivelmente bem sucedidas. Afinal, quem casa quer casa, há muito tempo ouvimos isso. Quem perde casa está querendo casa, sabemos disso também. E, se quem casa quer casa e quem perde casa quer casa, quem quer voto de quem quer casa, promete casa, e assim vamos vivendo de promessas de mais casas...