sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

   Em 111 anos, desde 1902, quase 100 jornais foram criados em Teresópolis

Até 1977, os jornais locais eram compostos letra por letra

     Desde 1977 atuo na imprensa de Teresópolis. Comecei na Gazeta, de Gilda Lopes e Pedro Helios, e foi onde fiquei íntimo dos problemas da cidade. Convivi com os professores Armando Lauria e Renato Paula, e aprendi muito também com os linotipistas, repórteres e o pessoal da oficina que passei a chefiar um ano depois de conhecer Teresópolis. Tipógrafo desde os 14 anos, li muitos textos interessantes no original, livros inéditos até, escritos à mão ou à máquina, o que me provocou o gosto pelas letras. Onze anos depois, em julho de 1988, quando ainda circulavam apenas os jornais “Gazeta” e “Teresópolis”, criamos O NOTICIÁRIO, tablóide de circulação semanal que passou a DIÁRIO em 1994, quando já era o primeiro em vendas nos finais de semana e a cidade tinha visto surgir vários outros hebdomadários, entre eles, A Folha de Teresópolis, Comunicação, Jornal do Muro, O Tempo, Mundo Cristão, SOS Terra, Novo Jornal Serra+Mar, Face a Face, Jornal Cidade e Jornal da Cidade.

     Passaram-se quase quarenta anos e muita coisa mudou na imprensa desde então. A Gazeta saía aos sábados em 77, passou a circular três dias por semana em 78, e já saía todos os dias a partir de 79, encerrando as atividades trinta anos depois, em 2009, quando era dirigida pela jornalista Nida Rego. O Teresópolis Jornal era o principal semanário da cidade em 77 e, depois de ter circulação diária por um curto período, voltou à circulação semanal, o mesmo acontecendo com A Folha de Teresópolis que também aventurou-se diário. Outros jornais surgiram nesse período e, entre tantos extintos, se mantém nas bancas A Verdade, Jornal da Cidade e Gazeta Fluminense - este, uma continuidade do semanário Voz da Região e, depois, Voz de Teresópolis, jornal que o ex-prefeito Jorge Mario e seu secretário José Alexandre apadrinharam e o transformaram em diário, em 2009, para desbancar O DIÁRIO DE TERESÓPOLIS.

     Nesse período, a cidade viu muito jornal abrir e fechar. Vimos vários semanários passarem à circulação diária e, pela inviabilidade de se estabelecerem, ou mesmo por incompetência, ou intenção dúbia, os assistimos voltarem à cômoda circulação semanal.

     Voltando alguns anos, à época do surgimento da cidade, podemos ver que muitos outros jornais também surgiram e acabaram, mantendo-se por pouco tempo, ou sobrevivendo por mais tempo aqueles que tiveram maior capacidade. O “Theresopolitano” foi o primeiro jornal de Teresópolis, pioneiro que surgiu em 1902 e, depois de um período sem circular a partir de 1908, voltou com outra direção em 1912, se mantendo até por volta de 1916 ou 1917. Nesses primeiros quinze anos da debutante imprensa local, circularam também os semanários “Therezopolis” (1911) e “Gazeta de Therezopolis” (1913), além do “O Correio Popular” e “O Paquequer”, um desafeto do prefeito e, o outro, o apadrinhado, ambos existindo às turras entre eles até os primeiros anos da década de 1920.

     Em 1923, quando Teresópolis ressentia a falta de uma imprensa regular, surgiu o semanário “O Therezópolis”. Propriedade do político Olegário Bernardes, o jornal do irmão do presidente Arthur Bernardes tinha como diretor o jornalista Nilo Tavares. Titular da publicação, anos depois, Nilo acabou rechaçando Olegário, tendo este criado outro jornal, passando a reeditar a “Gazeta de Therezopolis”, em 1936, enquanto brigava na Justiça pelo título supostamente usurpado. Três anos depois, Nilo Tavares abandonaria o nome que disputava com Olegário, criando em 1.o de janeiro de 1939, o “Teresópolis Jornal”, ainda em circulação, sob a direção do ex-prefeito Roberto Petto. “O Therezopolis” não voltaria a circular e, nos anos 1980, legitimamente, o Teresópolis Jornal o incorporou à sua bonita história.

    Teresópolis Jornal e Gazeta de Teresópolis se mantiveram como os únicos jornais da cidade até a chegada do DIÁRIO, em 1988. Nesse ano, quando a política local mudou, “endurecendo” o regime, democratizava-se a tecnologia da composição e impressão de jornais, permitindo o surgimento de diversas publicações que não precisavam mais ter gráfica própria. Até então, usava-se a composição a quente, das linotipos, substituída naqueles anos pela composição eletrônica, modelo que foi aperfeiçoando-se até o surgimento dos escritórios em casa, ou home-office, onde se edita jornais com maior facilidade e sem necessidade de grande investimento.

     Antes de 1988, e depois do surgimento do Teresópolis Jornal em 1939, surgiram diversas publicações interessantes e que contribuiram para o processo da informação impressa no município. Entre os tantos jornais que circularam nestes 50 anos, destacam-se a “Folha de Teresópolis”, do político Roger Malhardes (1945); “Teresópolis em Tablóide”, de Wilson Martins (1950); “A Notícia de Teresópolis”, de Amaury Santos (1967); “Folha da Serra”, de Darcy Decarlo (1974); “Destaque”, de Roberto Jucá e Vânia Barros (1985); “Jornal da Cidade”, de Jheovah Silva (1987); e os títulos “O Município”, “O Pupilo” e “A Voz de Teresópolis”, ambos do político Augusto Pinto Nogueira, na primeira metade do ano de 1950. Tivemos ainda, entre 1939 e 1988, o “Pim Jornal”, “Cometa”, “Teresópolis em Foco”, “Correio do Estado”, “Teresópolis Evangélico”, “Diário de Teresópolis”, “Quarta Dimensão”, “Cachorro Quente”, “Folha do Ponto”, “O Serrano”, “Correio da Serra”, “Tribuna de Teresópolis”, “Primeira Página”, “Varejão”, “Rio Shopping”, “Top News”, “Iniciativa”, “Tereshopping Jornal” e o “Culturarte”, editado pela Secretaria Municipal de Cultura. Além, claro, de diversas publicação clubísticas, esportivas ou de interesses religiosos.

     Já se vão 111 anos que o teresopolitano leu as suas primeiras notícias num jornal seu. Durante todo esse tempo, quase 100 novos jornais se apresentaram ao leitor, tentando conquistá-lo. Assim, há mais um século o papel jornal vem ganhando vida através daqueles que ousam um veículo alternativo, sempre com a finalidade de deixar o público bem informado. Com raras excessões, quase sempre o papel de imprensa foi usado para se cumpra o verdadeiro papel da imprensa: que é o de informar com isenção e comentar com imparcialidade. Na coluna WanDerLey de hoje, em homenagem aos empreendedores da imprensa, apresentamos a relação dos jornais que já circularam em Teresópolis.

JORNAIS EDITADOS EM TERESÓPOLIS
THERESOPOLITANO, Eduardo Meirelles Sobrinho, 1902; THERESÓPOLIS, Lafayete Borges e João Brunet Ribeiro, 1911; GAZETA DE THERESOPOLIS, Leôncio Brunet Ribeiro, 1913; O PAQUEQUER, 1915; CORREIO POPULAR, 1918; O THERESOPOLIS, Olegário Bernardes, Euclydes Machado, Armando Costa e Nilo Tavares, 1923; OFF-SIDE, Pseudônimo Ninguém, 1925; TERESÓPOLIS DE BOLSO, Ernesto Moraes, 1928; A TRIBUNA, Paulo José Esteves e Ernesto Moraes, 1931; CORREIO SERRANO, Azevedo Silva, 1933; GAZETA DE TERESÓPOLIS (2ª fase), Olegário Bernades, João Círio Filho, José Américo Magalhães, Omar Duarte de Magalhães, Gilberto de Faria e J. A. Pires Ferreira, 1936; A MARRETA, Renato Ferro; TERESÓPOLIS JORNAL, Nilo Tavares, Délcio Monteiro, Wilson Martins da Silva e outros; Antonio Paulo Capanema, José Renato de Miranda, Marilene Queiroz Capanema e Rodrigo Capanema de Souza; Roberto Petto Gomes, 1939; FOLHA DE TERESÓPOLIS, Roger de Souza Malhardes e Heitor Indalécio Esmoriz, 1945; O MUNICÍPIO, Augusto Pinto Nogueira Filho, 1950; O MUNICÍPIO DE TERESÓPOLIS, José Carvalho Jannotti, 1952; O PUPILO, Augusto Pinto Nogueira Filho, 1953; PIM JORNAL, Rubem Alsina, 1955; COMETA, Jehovah Silva, 1955; TERESÓPOLIS EM FOCO, 1957; TERESÓPOLIS EM TABLÓIDE, Wilson Martins da Silva, 1959; VOZ DE TERESÓPOLIS, Augusto Pinto Nogueira Filho, 1960; CORREIO DO ESTADO, Renato Peixoto dos Santos e Renato Ferro, 1965; A NOTÍCIA DE TERESÓPOLIS, Amaury Amaral dos Santos, 1966; DIÁRIO DE TERESÓPOLIS, João L. Sorsonas, César Vieira Bastos, Armando Lauria e Roberto Rebelo, 1968; TERESÓPOLIS EVANGÉLICO, Irineu Dias da Rosa, pastor Assis Cabral e pastor Antonio Portes, 1968; GAZETA SERRANA, Alfredo Ferreira, Pedro Helios Forster Leite e Gilda Lopes Leite, 1970; FOLHA DA SERRA, Renato Langoni Ferro, Eloy Decarlo e D’Arcy Decarlo Junior, 1974; QUARTA DIMENSÃO, Luiz Carlos da Silva, 1975; CACHORRO QUENTE, Antonio Carlos Alves de Carvalho, 1976; FOLHA DO PONTO, Roberto Augusto Pitta e Manoel Pereira, 1977; GAZETA DE TERESÓPOLIS (antes, GAZETA SERRANA), Gilda Lopes Leite, 1978; O SERRANO, Fernando José de Carvalho Paulino, Sávio Silva Santos e Paulo Caminha, 1980; O ARAUTO, Alunos do Colégio Euclides da Cunha, 1980; CORREIO DA SERRA, Herval Faria, 1982; TRIBUNA DE TERESÓPOLIS, Waldair Queiroz, 1982; TABLOIDE ESPORTIVO, Humberto Nicolau, 1983; PRIMEIRA PÁGINA, Maurício Gaze e José Machado, 1984; VAREJÃO, Maria Luiza A. Silva e Souza, 1985; RIO SHOPPING, Ronaldo Corrêa, 1985; DESTAQUE, Roberto Jucá e Vania Barros, 1985; CLASSIFICADOS DA SERRA, 1985; TOP NEWS, Antonio Faria, 1985; VAREJÃO, Ricardo da Silva e Souza, 1985; INICIATIVA, 1985; TERESHOPPING JORNAL, Ronaldo Corrêa, José Soares, Homero Norberto Alimandro, Roberto Rebelo, Comte. Antônio Faria e Raphael Faria, 1986; CULTURARTE, Secretaria de Cultura da PMT, 1986; ESPECIAL SERRANO, Jandira Escascela, 1986; JORNAL DA CIDADE, Jehovah Silva, 1987; A VOZ DE TERESÓPOLIS, José da Silva Pereira, Marcos Pereira, Jandira Scacella e João Canali, 1987; NOTICIÁRIO DE TERESÓPOLIS (O DIÁRIO, 1994), Wanderley Peres, 1988; JORNAL DO MURO, Irineu Dias da Rosa, 1989; JORNAL COMUNICAÇÃO, Ronaldo Corrêa e Homero Norberto Almandro, 1989; A FOLHA DE TERESÓPOLIS, Nadim Kantara, 1989; FACCE A FACCE, Roberto Wagner Rocco e André Luíz Rodrigues Pinto, 1989; O TEMPO, Carlos Humberto Longobardi Vilhena, 1990; MUNDO CRISTÃO, Renato Langoni Ferro, 1990; SOS TERRA, Gilberto Teixeira e Marcio de Paula, 1990; NOVO JORNAL SERRA&MAR, Tony Marins, 1990; O TEMPO, Carlos Humberto Vilhena, 1990; TERESHOPPING, Roberto Rebello, 1990; PANORAMA CRISTÃO, Rubem Alsina, 1991; JORNAL CIDADE, Eduardo Rolin e Raul Silvano, 1992; CLASSIBAIRRO, Randolfo Nóboa, 1992; TOQUE CIDADE, Serjo Robert, 1992; TOP NEWS, Comandante Faria, 1992; JORNAL DO ESTUDANTE, Jandira Isabel, 1993; CADERNO ZERO, Cláudio Furtado e Marcelo Rato, 1993; JORNAL DA CIDADE, José Carlos Costa Mattos, 1993; TRIBUNA DE TERESÓPOLIS, Renato Langoni, 1993; FOLHA CRISTÃ, Rogério Branco, 1994; A VOZ DA REGIÃO, Maurício Aragão, 1996; ACONTECE, Fábio Esteves, 1996; JORNAL CATÓLICO, Adilson Zegur, 1996; TROMBETA, Cíntia Vasconcellos, 1999; O POVO DE TERESÓPOLIS, Delmo Ferreira, 1999; VITRINE CULTURAL, Renée Cohen, 1999; TERESÓPOLIS NOTÍCIAS, José Carlos Cunha, 2001; O POPULAR, Nelson Durão, 2002; A VERDADE, Gilberto Júnior e José Carlos Dias, 2003; ARQUIBANCADA, Alexandre Baltar, 2003; FOLHA DE TERESÓPOLIS, Nadin Kantara, 2004; CORREIO DA SERRA, Paulo Fadel, 2008; CORREIO DO INTERIOR, Rafael Santos, 2010; REVISTA ESPORTES, Sílvio Maffei Filho, 2010; TRIBUNA ALTERNATIVA, sem editores, 2010; OPINIÃO E FATOS, Willians Feitosa, 2011; A NOTÍCIA, Dermerval Casemiro, 2011; PIMENTA MALAGUETA, Alexandre Vanatiko, 2011; A VOZ DE TERESÓPOLIS, Maurício Aragão, 2011; GAZETA FLUMINENSE, Maurício Aragão, 2012; O CLARIM, Rômulo Santana, 2012; PONTO TERE. Hanna Scalli, 2013; GAZETA NEWS, 2013;

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

   O avião que caiu em Teresópolis próximo à Pedra do Sino, em 1951

Montanhistas carregam avião montanha abaixo, até a sede do Parque
     Assim que adquiri o acervo Varejão, uma fotografia me intrigou bastante.  Ela mostra o próprio Adé-rito, ainda jovem, e alguns amigos, nu-ma inusitada aventura no Vale da Morte, lugar entre a Pedra do Sino e os Castelos do Açu. Eles estão próximos dos destroços de um avião que, soube através da legenda, teria caído na Serra dos Órgãos, no ano de 1954. Passado algum tempo, revirando de novo as caixas de fotografias, encontrei outras imagens, que mostram o mesmo avião, sendo arrastado pelo Vale das Antas, entre os abrigos 3 e 4 da Trilha do Sino.

     Me empenhei em pesquisar sobre o acidente e, entrevistando o guarda florestal José Marques, soube mais sobre ele. Funcionário do Parque Nacional e trilheiro do Sino, chegando a morar no Abrigo 4, “Seu José” lembrava bem do ocorrido, afirmando que foi ele, junto
 com alguns montanhistas, quem recolheu o corpo do piloto, encontrado ainda amarrado ao assento, quase somente ossos, apesar de passado apenas cerca de um mês da morte. - “Descemos ao local do acidente, depois da Pedra do Sino, e guardamos os ossos num saco, trazendo para o diretor do Parque. Lembro que o rapaz estava com uma aliança no dedo, onde estava gravado o nome de uma mulher. Era a sua noiva e se casariam por aqueles dias”, me disse. “Depois, auxiliados por um grupo de mota-nhistas, os funcionários retiraram o teco-teco do abismo e vieram arrastando-o até a sede do Parque Nacional. Um grupo trouxe a carenagem, que era mais leve e outro o motor, que teve que ser enganchado em paus para ser transportado. Meses depois, com nova direção no Parque, o avião acabou vendido como sucata num ferro velho da cidade”, contou José Marques.

     A memória do funcionário do Parque, no entanto, era oral e nenhum documento ou data ele tinha para que as fotografias do Adérito Varejão ganhassem vida. Nos jornais Gazeta e Teresópolis, que circulavam na época, e bem registram o período, não encontrei nada. Podia estar errada a legenda e o acidente ter ocorrido um ano antes ou depois e, nos volumes de 1953 e 1955 destes jornais também não se falou nada sobre o assunto.

Acabei perdendo o interesse pela pesquisa.

     Agora, pouco tempo atrás, preparando um texto sobre a Academia Teresopolitana de Letras, peguei por engano o volume de 1951 da Gazeta de Teresópolis. Queria saber mais sobre um baile que ocorreu no Higino Country Clube em 1961, memorável por conta de uma jocosa reportagem escrita pelo jornalista Jair Gomes Damasceno. Sem me dar conta do engano, fui desfolhando as frágeis páginas da brochura até encontrar na edição do dia 10 de junho, uma nota falando sobre o acidente que, até então, sabia ter ocorrido em 1954. “Encontrados os despojos do avião desaparecido e o cadáver do seu piloto”, diz a Gazeta, que informa ter corrido pela cidade as mais desen-contradas versões sobre o macabro achado. “Foram, há dias, encontrados em local de difícil acesso, conhecido como Vale da Morte, pelos nossos alpinistas, a 1200m de altitude, na Serra dos Órgãos, os destroços de um avião Teco-Teco, com o cadáver, já em adiantado estado de putrefação, do respectivo do piloto”, diz o jornal.


     Quase três meses depois, ainda na Gazeta de Teresópolis, a informação que tinha antes desistido de procurar, apareceu, ocupando quase toda a primeira página da edição de 2 de setembro. O jornal contou sobre o acidente e deu detalhes de como o avião sinistrado foi retirado do abismo, revelando ainda que os que desceram a fim de amarrar as cordas no Teco-Teco, localizaram, um pouco além dos despojos do avião, a ossada do segundo tripulante, uma vez que o corpo do piloto e proprietário do aparelho já havia sido transla-dado para o Rio de Janeiro, por pessoas da família.


     Bem ao gosto do jornalismo praticado pela imprensa em meados do século passado, a romanceada matéria traz a informação que bem legenda as fotografias do acervo Varejão, elucidando e dando memória a um fato que já é esquecido por muitos dos que viveram aqueles anos onde um acidente era notícia para quase um ano inteiro.


     O Registro


     No dia 25 de agosto de 1951, tendo à frente os montanhistas Benvenuto Torri Machhi, Carlos Corradini, David Mar-tins do Amaral, Adérito Varejão e José Francisco Ca-milo organizaram uma expedição ao Vale da Morte para a retirada do avião encontrado nos primeiros dias de junho daquele ano, acidente que teria ocorrido cerca de um mes antes. Devidamente equipados com cordas e material de escalada, os aventureiros partiram às 14h, pernoitando no Abrigo 4 do Parque Nacional, próximo ao cume da Pedra do Sino. No dia seguinte, bem cedo, seguiram para o local do sinistro, “afrontando temperatura baixa assim como rompendo nevoeiro espesso, o que dava a impressão de um fabuloso oceano de nuvens revoltas, rompido aqui e alí por blocos eretos de granito”. Descendo-se pelo lado oposto da montanha, e atingido o fundo do vale, o avião foi encontrado às 9h da manhã e, amarrados os cabos, iniciou-se a retirada do aparelho, quase destroçado. Por volta das 15h, o aparelho já estava no alto da montanha, de onde foi carregado até a sede do Parque Nacional, onde deveria ficar exposto.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Tempo de enchente em Teresópolis - as chuvas de novembro de 1978

A Reta, dos tempos das "grandes enchentes" dos anos 1980. Era ainda pior antes da obra do "Corte"
     Chegou o tempo das chuvas. E, de agora até abril, não se tem sossego mais. Quem vive nas beiras dos rios está em alerta para as águas que avançam pelas margens ocupadas. E, quem construiu ou mora de aluguel nos morros também está em perigo: um deslizamento de blocos de terra ou de pedra pode ocorrer a qualquer momento e atingir barracos ou sólidas construções de alvenaria.

     É o período, também, que a Região Serrana do Rio de Janeiro mais aparece na grande mídia. Toda semana, nos próximos quatro meses, vão passar por aqui os carros de reportagens das emissoras de tevê aberta, e dos jornais, e de outras mídias de grande alcance, até as internacionais. Mais uma vez, Teresópolis vai ficar famosa pelos seus morros ocupados irregularmente, pela desordem urbana, e as construções dentro dos rios vão tornar-se a referência da cidade que era para ser divulgada como a terra do Dedo de Deus, da sede da CBF, e dos cumes mais cobiçados pelos montanhistas.

     Isso remete a uma reflexão: precisamos entender melhor o nosso ambiente e encontrar um meio de evitar o vilipêndio da nossa imagem, tão sofrida nesses tempos de apreensão.

     Não seríamos vítimas de trombas d’água e inundações se agredíssemos menos o planeta, se não esgotássemos os seus recursos naturais com a nossa ansiedade pelo conforto e pelo consumismo desenfreado. Seríamos poupados se não fôssemos tão ignorantes em nosso comportamento com o meio em que vivemos e se tivéssemos, desde as primeiras agressões que a cidade sofreu, tomado as devidas providências contra os políticos inconsequentes que nos deram esse nosso presente.

     Poucos se dão conta. Mas, praticamente, todas as favelas de Teresópolis foram apadrinhadas por prefeitos, vereadores e deputados. Quem patrocinou as invasões na Granja Guarani nos anos 1950? Quem liberou a ocupação da parte alta do Rosário e do Perpétuo a partir dos anos 1990? Quem permitiu que um terreno da prefeitura na rua Mato Grosso virasse uma favela, criando nova área de risco e desvalorizando os imóveis próximos? E o Serrote, Pimentel, Vale da Revolta, Cambucá... Terreno do INSS, a Quinta Lebrão foi moeda política de deputados por longo tempo, o mesmo ocorrendo no bairro Castelinho. E a favelização que avança sobre o interior do município? Onde estavam os fiscais da prefeitura, onde estavam os mecanismos de fiscalização do judiciário, onde estava a sociedade organizada que viu a cidade empobrecendo sem se mobilizar?

     As chuvas fortes em Teresópolis ocorrem mais entre dezembro e abril, mas tivemos anos em que as enchentes anteciparam-se, atingindo a cidade já um mês antes. E uma delas aconteceu em novembro de 1978, provocando grandes prejuizos. “Petrópolis e Teresópolis arrasadas pelo temporal”, noticiou O DIA, em 25 de novembro daquele ano. As chuvas em Teresópolis começaram às 2h da madrugada do dia 23 e, no dia seguinte, o quadro era de desolação. Até um prédio, de quatro andares, na rua Fileuterpe, desabou. Considerada uma tragédia, marcando a cidade como área de risco, a ocorrência contabilizou 6 mortos e dezenas de feridos. Três anos depois, em abril de 1981, desabaria a serra no Garrafão, acidente seguido de vários outros, nos anos seguintes, na mesma estrada e nesse período critico do verão.

     Em 1983, aconteceu uma das maiores enchentes de Teresópolis, seguida de grande destruição, com quedas de barreiras, afundamento de ruas e rompimento de galerias, superando a recente tragédia de 1978. Acostumados a enchentes na Reta com água a 1m20cm, os comerciantes viram água a até 2m20cm de altura, cobrindo as carrocerias dos caminhões estacionados no canteiro central das avenidas Feliciano Sodré e Lúcio Meira. Carros passavam boiando pela Várzea, enchente que durou de 4h da tarde até as 6h da manhã do dia seguinte. 

     Muitas outras enchentes aconteceram antes de novembro de 1978. E, depois da "grande enchente" de 1983 também tivemos outras chuvas fortes, como a de 2002, por exemplo, quando duas barreiras deslizaram no Perpétuo, matando quatorze pessoas. Sem contar a tragédia de 2011, com mais de 400 mortos, e que já vai ficando na memória das pessoas como apenas mais uma entre tantas.

     Maiores ou menores, combinação da fúria da natureza com a insensatez do homem, as enchentes e as barreiras, há mais de uma geração tão conhecidas de todos nós, podem até não ser erradicadas, mas terão seus efeitos minimizados se houver uma política mais coerente de convivência do homem com o meio ambiente.

     Precisamos aprender com a história. Os políticos da década de 1950 nada fizeram para educar o povo; os da década de 1980 até incentivaram as invasões. Em Teresópolis - e isso é uma aberração! - as pessoas invadem os morros não apenas para morar, mas também para construir casas para alugar e explorar aqueles que precisam de moradia. Muita gente em Teresópolis usura o próximo dispondo-o em seus casebres de aluguel nas áreas de risco. E, quando ocorrem as tragédias, ainda vão à porta da prefeitura para serem recompensados. Pior é que são atendidos e só não conseguem o prêmio sempre porque os políticos não costumam cumprir as promessas que fazem. E, muito menos, entregar as casas que nunca fazem.

     Passamos por novembro, estamos em meados de dezembro, e ainda teremos mais de 120 dias de apreensão. Quem mora em lugares de risco pouco pode fazer para evitar a morte, a não ser atender o alerta da sirene quando ela tocar. Mas, podemos, e devemos nos conscientizar de que algo precisa ser feito. A solução existe e vai além das promessas de residências para os desabrigados, ou de palestras que ensinam como evadir-se de casa em caso de chuvas fortes.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Parque Nacional da Serra dos Órgãos

Jornal anuncia risco que o Parque correu, em 1958

Criado pelo Decreto 1822, de 30 de novembro de 1939, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos cresceu de tamanho, tornando-se uma das maiores áreas de proteção ambiental do país. É também um dos mais importantes, um dos mais visitados e um dos mais conhecidos parques brasileiros. Espécies raras da fauna e da flora estão aqui protegidas, algumas endêmicas da região, inclusive pouco conhecidas, o que provoca a curiosidade de cientistas, principalmente estrangeiros, e estudantes de várias universidades que buscam Teresópolis para sua formação.

O ParNaSO guarda também monumentos geológicos de grande interesse para a humanidade. Maravilhosa cadeia de montanhas, que compõe a Serra do Mar, nossa cordilheira provoca a ambição dos aventureiros desde meados do século 19, segundo relatos dos jornais de época.  A curiosidade sobre os seus cumes determinou até o início da prática do alpinismo no Brasil: Desbravado em 1912 pelos teresopolitanos José Teixeira Guimarães, Raul Carneiro e os irmãos Acácio, Américo e  Alexandre Oliveira, o Dedo de Deus tornou-se o símbolo do montanhismo nacional. Uma das escaladas mais escabrosas, e temida pelos que incomodam-se com a altura, a Agulha do Diabo está entre as dez montanhas mais cobiçadas do mundo. Composto pelo Capucho, o Nariz, a Verruga, o Queixo e a Cruz, e de mais fácil acesso, o Perfil do Frade é outro que encanta a muitos. Mais democráticas ainda, as caminhadas no Parque tornaram-se lazer obrigatório para os jovens da cidade. As trilhas do Sino, da Primavera, o Cartão Postal, o mirante Mozart Catão... A travessia Petrópolis-Teresópolis é conhecida no Brasil inteiro e virou referência para quem gosta de caminhadas.

Passados aqueles primeiros anos de sua formação, quando Teresópolis viu-se na iminência de perder a importante reserva florestal diante das pendengas judiciais ocorridas até o ano de 1960, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos alcançou a maioridade com sossego e, sucessivamente, vem sendo cada dia mais abraçado pela consciência ambiental. Recentemente, em setembro de 2008, quase dobrou de tamanho, pulando dos 10.527 hectares dos anos 1950 para 20.024 hectares, e isso deve-se muito ao ex-Ministro Carlos Minc, que ampliou a nossa área de proteção para os limites dos municípios de Magé, lingando-o à reserva do Tinguá.

Criado pelo presidente Getúlio Vargas, durante período de excessão democrática, entre 1930 e 1945, o Parque Nacional compunha-se de uma área de 8.450 hectares e foi ampliado em 1.500 hectares no ano de 1950, pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, ato confirmado em 1953 pelo presidente eleito Getúlio Vargas, quando teve anexada grande área de terras da fazenda Garrafão, que compreendia as matas do Escalavrado, Dedo de Nossa Senhora, Dedo de Deus, Peixe e Frade, ampliando seu tamanho para quase 11.000 hectares, impedindo que os sopés destas montanhas se tornassem parte da urbe.

Conquista de presidentes, ambição de cientistas e sonho de teresopolitanos, brasileiros que ousaram pensar ecologicamente quando esse tema não estava ainda nas mesas de debates, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos deve sua existência muito aos seus diretores. E o primeiro deles, Gil Sobral Pinto, gostou tanto do lugar que foi seu administrador por cerca de onze anos, entre 11 de setembro de 1940 e 11 de abril de 1951. Hoje, é diretor do ParNaSO o biólogo Leandro Goulart, que assumiu em 2011, substituindo Ernesto Viveiros de Castro, que entrou no lugar de Bernardo Issa, em 2003. Alguns mais, outros menos, todos contribuiram muito para que a unidade de conservação fosse implantada, e mantida, devendo-se a eles algumas conquistas não obtidas por outras áreas de proteção. No box, a relação dos administradores do Parque.

Apresentado pelo engenheiro agrícola Jose A. Vieira, um estudo publicado cerca de 60 anos atrás, define que o Parque Nacional da Serra dos Órgãos tinha como objetivo a expansão econômica, turística e científica, servindo ainda para proteger os mananciais, manter as florestas e preservar as terras à jusante contra os efeitos da erosão das enchentes.

Pouco mais de dez anos depois de criados os primeiros parques nacionais do país, José Vieira justifica a inédita iniciativa pela possibilidade de sua exploração turística, sendo os parques uma "fonte higiênica, recreativa e de vitalização econômica". O estudo da flora, da fauna e da geologia regionais, além da preservação dos monumentos geológicos, eram também outras justificativas. Publicado na revista Informação Agrícola em 1955, o trabalho traz informações preciosas sobre a região da Serra dos Órgãos, já muito visitada por naturalistas e botânicos de renome, mas ainda carente, àquela época, de um trabalho metódico e completo sobre a sua flora e fauna. Ver box.

O Parque Nacional da Serra dos Órgãos em 1955

Oberservações já efetuadas revelam que a flora a não ser na periferia e mesmo aí em áreas diminutas, está ainda totalmente isenta  de promiscuidade de plantas exóticas. A floresta maior do Parque apresenta o aspecto comum de vegetação serrana dessa parte do Brasil, isto é, nela predominam as espécies das famílias das leguminosas, das lauráceas, das mirtáceas, das meliácias, das bignomiáceas sapotácias, solanacias, rubiacias, etc. Sobressaem, assim, as cássias, os cedros, as cangeranas, as canelas, os ipês, as jaboticabeiras do mato, os miricis, os jequitibás, as quaresmeiras, etc. As bromeliáceas formam típicos maciços de grande extensão sobre a rocha viva.
A fauna, afugentada para o recesso das montanhas e das matas, pela continuada exploração de pedreiras, e pela construção das estradas Itaipava-Teresópolis e Rio-Teresópolis, vai retornando, a despeito da deficiência da fiscalização de guardas florestais. Rica em insetos, e sobretudo notável na abundância de lepdópteros (borboletas noturnas e diurnas), coleópteros, himenopteros (abelhas e marimbondos, etc), dípteros (moscas), himípteros (cigarras), ortópteros (gafanhotos), etc. Relativamente pobre em ofídios, apresenta, entretanto, relativa abundância de jararacas e grande variedade de batráquios.
A ornito-fauna, ainda pouco estudada, é representada por sanhaços, tico-ticos, andorinhas, etc, e por pássaros entre os quais sobressaem os canários e os sabiás "laranjeiras" e "Una", tidos os melhores cantadores do Sul do Brasil. As aves mais comuns são as capoeiras, os jacus, os nambus e diversas pombas (rolinha e juriti). Quanto ao macuco diz-se existir nas matas menos atingíveis. Os macacos são vistos, às vezes, até na sede do Parque. Entre os quadrúpedes, destacam-se os gatos e cachorros do mato, iraras e menos comumente a maracajá. Os tatus são muito abundantes. A paca é principalmente atraída pelas roças do milho do Vale do Jacó. O encontro de antas nos banhados de altiplano do Parque sugere reintrodução desse mamífero, o maior da fauna americana.
José A. Vieira.

DIRETORES DO PARQUE NACIONAL:
11.09.1940, Gil Sobral Pinto;
07.06.1942, Neoarch da Silveira Azevedo;
19.09.1942, Wanderbilt Duarde de Barros;
13.05.1943, Gil Sobral Pinto;
12.04.1951, Altamiro Barbosa Pereira;
05.06.1951, Quintino Dourado Maranhão;
02.10.1951, Manoel Vergosa G. Fraga;
08.02.1955, Dael Pires Lima;
24.10.1956, Elyowald Chagas de Oliveira;
29.05.1975, Tarcisio Lima Aragão;
04.07.1975, Antonio Domingues Aldrighique;
04.12.1975, Cesar Lamenza;
09.04.1977, Mário D'Amato Martis Costa;
01.10.1991, Oscar Rensburg;
25.11.1991, Kurt Trennepohl;
28.05.1992, Francisco Neves de Carvalho;
09.10.1992, Jovelino Muniz Andrade Filho;
Setembro de 2003, Bernardo Issa;
Dezembro de 2003, Ernesto Viveiros de Castro;

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O guarani José de Alencar, o Paquequer e a história recente de Teresópolis


"A torrente passou rápida, esmagando tudo que se opunha à sua passagem"
Um dos mais bem sucedidos romances brasileiros, referência na literatura indianista, O Guarani foi ambientado às margens do rio Paquequer, em Teresópolis. Publicado em 1857, o livro conta a história do índio Peri e da branca Ceci, em quatro partes distintas: Os aventureiros, Peri, os Aimorés e A Catástrofe, esta última, relatando uma grande enchente que alagou a várzea e provocou enorme destruição, “esmagando com o peso tudo que se opunha à sua passagem”.

Mais de 150 anos depois, e ocorrida na Região Serrana a tragédia imaginada por José de Alencar em seu trabalho, a Secretaria de Cultura elaborou um projeto de resgate da memória local, visando reconhecer, e trazer para o nosso ambiente, o importante romance, divulgando o escritor, e provocando o olhar do brasileiro para o nosso rio - hoje degradado e tão carente de atenção.

Embora alguns tentem tirar de Teresópolis o cenário dessa importante obra literária, sugerindo que o escritor tenha se inspirado no rio Paquequer de Sumidouro, curso d'água que nasce na serra da Soledade, não há dúvida de que o autor de O Guarani refere-se ao nosso Paquequer em seu livro e a não a outro rio. O intróito do romance deixa claro isso - Serra dos Órgãos! - e, ao longo do texto, outras características geográficas da região são claramente retratadas, como nossas cascatas, a Várzea e a própria distância que percorre o rio.

“De um dos cabeços da Serra dos Órgãos desliza um fio d'água que se dirige para o norte, e engrossado com os mananciais que recebe no seu curso de dez léguas, torna-se rio caudal. É o Paquequer: saltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma serpente, vai depois se espreguiçar na várzea e embeber no Paraíba, que rola majestosamente em seu vasto leito...”

Contemporâneos de José de Alencar também ambientam em Teresópolis o romance. Em pesquisa na Biblioteca Nacional, encontramos um exemplar do jornal O Globo, de 10 de janeiro de 1876, menos de 20 anos da publicação do romance, onde o escritor M.P. se refere ao rio da nossa cidade como cenário do Guarani.

“À entrada da povoação de Teresópolis o viajante ouve o sussuro cadente e monotono das aguas de um rio, que espreguiça-se indolente sobre lençóes de arêa. É o Paquequer. Foi as margens desse novo Hyppocrene que o Alencar escreveu o immortal Guarany. Foi ahi que elle ideou aquela Cecy tão bella, tão meiga, tão do céo”.

Repórter de seu tempo, e tão útil à nossa memória, articulista que deixou apenas suas iniciais no texto providencialmente inserido naquele jornal extinto ainda no século 19, M.P. traz outras considerações fantásticas sobre a nossa região, freguesia que já sonhava com o trem e que seria transformada em cidade 15 anos depois. O visitante que apaixonou-se por Teresópolis guardou na memória através da sua carta os nomes de hotéis, de pessoas, de lugares e até relatou a visita do Imperador Dom Pedro II, que por aqui também passou no mesmo período de sua estada.

“Garanto-te meu amigo, que quando li O Guarani tive vontade de ser o Pery daquela Cecy, e tu? Estou em Theresopolis. A leitura deste nome te parecerá que trato de uma cidade, pois tu hellenista de força sabes a significação de Theresopolis; enganas-te, é um arraial ligeiro fugitivo, bello, pittoresco, onde se vive, onde se tem pulmões emfim... Não é só o tisico que aqui encontra condições favoraveis à sua existencia: muitos outros enfermos assaltados por diversas molestias tem tambem encontrado restabelecimento rapido e completo. O Beri-beri desapparece com alguns mezes de permanencia neste abençoado clima; as intoxicações palustres, tão frequentes no Rio de Janeiro, acham também aqui o remédio mais eficaz... Não imaginas como o meu coração se confrange ao dizer adeus a esses valles, a estas montanhas, para ir buscar nessa Côrte impura os recursos para minha subsistencia. Como é diverso o viver. Aqui o borborinho das cascatas, lá o borborinho das paixões; aqui o silencio das mattas, lá o tumultuar incessante de uma sociedade macilenta e egoista. Oh! si eu podesse nesse doce retiro desfructar em companhia de minha prole os dias que tenho ainda para caminhar na senda alpestre da vida, eu considerar-me-hia como o mais ditoso dos homens”.

Passada a tragédia, guardada a singela lembrança de 1876 no registro do acidental repórter, e ainda inconsciente o teresopolitano do relacionamento amistoso que deve ter com a natureza e a memória, precisamos inserir o romance O Guarani na história municipal. Urge também a necessidade de pregarmos um novo olhar para o importante escritor indianista que ignoramos tanto.

“A torrente passou rápida, veloz, vencendo na carreira o tapir das selvas ou a ema do deserto; seu dorso enorme se estorcia e enrolava pelos troncos diluvianos das grandes árvores, que estremeciam com o embate hercúleo. Depois, outra montanha, e outra, e outra, se elevaram no fundo da floresta; arremessando-se no turbilhão, lutando corpo a corpo, esmagando com o peso tudo que se opunha à sua passagem...”

Lembrada essa semana na secretaria Estadual de Ambiente, para onde fomos em busca de apoio ao nosso projeto de resgate da memória local, a descrição de “A Catástrofe” provocou no secretário Carlos Minc resposta imediata. “Vamos construir esse monumento ao Guarani nas margens do rio, e será na Cascata do Imbuí, no principal parque fluvial do Paquequer. Precisamos tributar ao escritor José de Alencar a homenagem proposta pela secretaria de Cultura de Teresópolis e que a serpente de água que ele descreveu em seu livro nos ajude a entender melhor as vontades da natureza e obrigue o teresopolitano a um melhor convívio com o seu poético rio”.

A proposta foi feita, e uma promessa também. É promessa de político, tudo bem. Mas de um político que costuma cumprir a palavra, principalmente quando se trata de Teresópolis, cidade que tanto admira.

Em agosto de 2008, apresentei ao Carlos Minc - que prefaciou o livro SOS Paquequer - a idéia de um parque municipal em Teresópolis. Ministro do Meio Ambiente, ele prometeu apoiar a iniciativa e, em julho de 2009, com o seu empenho pessoal, o Parque da Tartaruga era inaugurado. Agora, novo pedido foi feito ao amigo e o memorial ao Guarani proposto pela secretaria de Cultura já tem até data para ser mostrado ao público: “será inaugurado junto com as obras dos parques fluviais do Paquequer, Príncipe e Imbuí, e fará parte do mirante da Cascata do Imbuí”, garantiu.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

   Acidente de trem no túnel dos Órgãos

Túnel da Beira Linha, em direção ao Alto

     Em exposição nos jardins da Casa da Memória Arthur Dalmasso, um trenzinho vem provocando a atenção de quem passa pelo local, inclusive de alunos que vão em grupo ao importante espaço cultural para conhecer melhor a história do trem da Estrada de Ferro Teresópolis.

     Embora já tenha parado de circular há mais de 50 anos, o trem ainda está na memória do teresopolitano e, nos mais novos, desperta grande interesse. Contada de forma lúdica, nos painéis que revestem os cenográficos vagões, a história do trem revela como ele foi chegando, aos poucos, às estações de Magé, de Guapimirim e da Barreira, mostrando como foi difícil a construção da estrada e como era, também, difícil a viagem ao Rio de Janeiro, composta de baldeações entre os trens, sem contar a passagem pelo mar, travessia feita em improvisadas embarcações.


     Entre os painéis, um conta a história dos acidentes da nossa estrada de ferro, todos eles ocorridos a partir da encampação da EFT pelo governo federal, em 1919, justamente quando a empresa do modesto empreendedor José Augusto Vieira já se mostrava deficitária e carente de investimentos. 


     Foram vários acidentes, destacando-se o descarrilhamento de março de 1930, na serra, quando morreram 8 pessoas, e o de março de 1940, quando outros 16 passageiros perderam a vida num choque de trens. Um curioso acidente, de uma vítima apenas, no entanto, é o caso que pretendemos contar hoje. Ele ocorreu no túnel da Beira Linha e a memória dele teria sido perdida não fosse uma entrevista do maquinista Pedro de Jesus, publicada no livro “A Estrada de Ferro Therezopolis”.


     “Antônio Virgínio, em substituição ao seu colega, o maquinista Innocencio Virginio, conduzia a máquina N.o 1, com destino à Estação da Várzea, trazendo dois carros que deviam transportar os passageiros das 4h55 da tarde, quando o eixo da locomotiva partiu-se, indo, assim, a composição, com a velocidade em que andava já fora dos trilhos, de encontro a uma barreira, imprensando o infeliz empregado da ferrovia, que teve a perna quebrada em duas partes; a direita bastante magoada, e a barriga e o braço esquerdo horrivelmente queimados pela água fervendo que se derramava da caldeira”.


     Publicada no jornal “O Therezopolis” do dia 23 de dezembro de 1928, a nota dá conta do primeiro de uma série de acidentes com vítimas fatais envolvendo os trens de Teresópolis. Tragédia pessoal da família Virgínio, envolvendo Antonio e Inocêncio - um tinha substituído o outro na tarefa de trazer a locomotiva da estação do Alto à Várzea -, o acidente aconteceu na tarde de uma sexta-feira, dia 14, entre Araras e a Várzea”. Conhecido como o acidente do túnel, o jornal não informa se ele aconteceu próximo ou dentro do túnel, nem, se ambos com o sobrenome Virgínio, qual seria o grau de parentesco entre Innocêncio e Antônio.


     “Eram irmãos”, informou o maquinista Pedro de Jesus. Pedro contou ainda sobre um inusitado episódio, ignorado, inclusive, pela imprensa, que envolveu outra máquina da EFT. “Em 1945, aconteceu um acidente próximo à ponte do Garrafão. O maquinista Antonio Alves de Abreu, quando foi engatar a segunda cremalheira, “soltou e espigou” o maquinista Paulo Bragança, que morreu imprensado contra uma pedra. Eles estavam trazendo serra acima uma máquina plana, empreitada que exigia três cremalheiras”. Segundo Pedro, a locomotiva plana pesava em torno de 38 toneladas e precisava ser dividida em duas partes para facilitar o transporte. - “Duas máquinas cremalheiras traziam a parte mais pesada e uma terceira máquina, a parte de trás da locomotiva. Na ponte, tinha que passar uma cremalheira por vez, por causa do peso, foi quando aconteceu o acidente, ao refazer o engate”, informou Pedro, que contou ainda como uma outra cremalheira se perdeu na serra. - “Essa cremalheira parou na caixa d'água para abastecer. Deixaram a trava em posição errada e quando a água encheu o tanque, a pressão fez liberar o freio, desandando a máquina, que estava solteira, sem vagões. A tripulação não tinha o que fazer, senão pular da máquina que já ganhava velocidade. E a empresa não tinha como recuperá-la. Custaria uma fortuna guinchar a cremalheira do abismo, onde está até hoje”.


     Um dos sítios históricos mais importantes da Estrada de Ferro Therezopolis, e muito representativo para a memória do trem, bem tombado pela municipalidade, poucas informações existem sobre o Túnel da Beira Linha, originalmente chamado “Túnel dos Órgãos”. Lembrei de contar esse episódio do acidente na coluna de hoje mais para mostrar duas fotografias que ganhei de presente essa semana do leitor Fernando Luiz Barreto. Na verdade foi um pretexto que encontrei para compartilhar essas imagens inéditas, que mostram a entrada e a saída do nosso túnel da Beira Linha, coisa que poucos tiveram a curiosidade de registrar.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

   A história da Festa do Produtor Rural de Teresópolis

     Começa nesta quarta-feira, dia 23, a Festa do Produtor Rural de Teresópolis. Organizada pela prefeitura, a Feport ocorre em Albuquerque desde 1989, quando foi aberto o Parque de Exposições. Dá c
Feira de 1951, nos salões da prefeitura
ontinuidade à Festa do Produtor Rural criada dez anos antes, em Bonsucesso, durante o governo Pedro Jahara. Acontecia desde 1980 em Vargem Grande e era, até então, feita pela secretaria municipal de Educação.

     Segundo a prefeitura, a Feport está em sua edição número 30. Mas, poucos sabem, antes de Pedro Jahara que a iniciou, de Celso Dalmaso que a manteve, e de Tricano e os governos que o sucederam guardando o formato atual, a “festa do produtor” de Teresópolis vem de tempo mais distante.

     Chamada “Feira de Theresópolis”, a nossa primeira festa agropecuária ocorreu em 1855, na praça da “Bragantina”, hoje bairro do Alto. Realizada nos dias 17, 18 e 19 de junho, a “feira” reuniu mercadorias de outras regiões, como tecidos e produtos da indústria nacional, servindo para a recém-criada freguesia mostrar os seus bois gordos, as vacas leiteiras, cavalos de raça e os porcos de engorda que alcançavam várias arrobas, revelando ainda a agricultura local, com o café, batatas, grãos e farinhas de mandioca, destacando-se a couve-flor de Teresópolis,  hortaliça que se tornaria a base da produção agrícola no município mais de cem anos depois.

     No auge da guerra mundial, quando os pracinhas de Teresópolis lutavam nos campos da Itália, e enfraquecia-se o governo do ditador Getúlio Vargas, foi reorganizada a nossa festa do produtor rural. Denominada como “1a. Mostra Agrícola e de Pequenas Indústrias”, serviu para comemorar os 53.o  aniversário do município, e o terceiro ano de governo do prefeito Lauro Antunes Paes de Andrade, interventor que mais durou no cargo - de julho de 1941 a fevereiro de 1945.

     A feira trouxe ao município que estava em festa autoridades dos governos estadual e federal. As delegações de políticos chegaram na estação da Várzea, de onde partiram em caravana para a praça de Santa Teresa, onde após a missa, foi feito um comício seguido de desfile das escolas municipais, onde destacaram-se, segundo a imprensa, “os cartazes com dísticos de saudações aos dirigentes do país e ao chefe do Executivo local”. Foram realizados ainda jogos de futebol e exibições de bandas de música.

     Embora a festa de 1944 pareça mais um desfile de políticos e de veneração à ditadura, a notícia dessa exposição relata a pujança da produção agrícola naquele período de racionamentos e estagnação econômica. Segundo relato do jornal Gazeta, nesse tempo Teresópolis produzia milho, abóboras, batatas doce, roxa e inglesa, inhame, couve-flor, cenoura, alho, café, tomate, mandioca, soja, arroz, vagem, quiabo e amendoin. E, ainda, além de aves e animais de vários portes, palmas e copos de leite, caqui, cana, repolho, nabos roxo e japonês, mamão, abobrinha, ervilha, chá, fumo, lima da pérsia, banana, batata baroa, laranja bahia, cidras, grape-fruit, mamona, xuxu, alface, morangos e os feijões preto, enxofre, branco e manteiga.

     Substituindo Paes de Andrade, entre fevereiro de 1945 e outubro de 1947, os interventores Roger Malhardes, Agnaldo de Figueiredo, Andrade Netto, Américo Viveiros e Fernando Pimentel não deram continuidade a essa feira. Ela voltaria em julho de 1947, depois da assunção à prefeitura do jovem José de Carvalho Jannotti, de apenas 31 anos. Técnico agrícola trazido a Teresópolis para acabar com a “praga do marmelo”, e quem tinha organizado a feira de 1944, onde se projetou, Jannotti criou a “Exposição Agrícola e Industrial de Teresópolis”, que foi feita até 1958, ocupando o pátio e os corredores e salões da prefeitura.

     Pouco lembrada hoje, a “exposição” iniciada por Jannotti em 1947 talvez seja a mais legítima de todas as festas de produtor rural realizadas em Teresópolis. As imagens guardadas pela memória municipal revelam a importância da agricultura em meados do século passado e a efetiva participação da indústria, do comércio e dos agricultores. Nabos de 18 quilos, inhames e batatas enormes, frutas e flores exóticas, mandiocas de três metros de comprimento... Móveis, máquinas, minérios, doces... A exposição era voltada para a agricultura e a indústria, e provocava o interesse da população em geral.

     A Feport dos últimos vinte anos pra cá agrada ao grande público. Mas, afastada cada vez mais do agricultor e do empresariado local, e atendendo a outro público alvo, é feita num modelo que provoca o desinteresse do industrial e do produtor rural. É um formato que contribui pouco para o desenvolvimento do município, sem contar o prejuízo que traz à memória local. Afinal, não fossem as festas de 1855 e as de meados e final do século passado, não teríamos desses períodos registros tão fiéis da história da nossa agricultura, e da indústria e comércio.