sábado, 22 de fevereiro de 2014


   HOTÉIS DE TERESÓPOLIS NOS ANOS 1940

O imponente Várzea Palace Hotel e seus jardins de meados do século passado

   EM 1949, o Ministério da Agricultura lançou uma revista para divulgar o Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Exemplar raro, possivelmente único, guardado pelo colecionador Adérito Varejão, propriedade do acervo Pró-Memória Teresópolis, a revista de 78 páginas, com primeira página colorida - exibindo o montanhista Malvino confessando-se ao Padre Pio Ottoni, quatro anos antes, em junho de 1945 -, teve a “edição cancelada” e, não fosse o interesse de Varejão pela nossa memória, muitas informações alí impressas estariam hoje perdidas. 

     Além de mostrar os encontros, conferências, congressos e festividades ocorridas no Parque, no final daquela década, a publicação revela sobre as visitas dos embaixadores do Uruguai, Estados Unidos, Portugal e Inglaterra, países que se interessaram em conhecer a estrutura da nossa “reserva florestal” e, além de imagens das pouco conhecidas montanhas da Serra dos Órgãos, relata sobre um “esporte diferente, que vinha se desenvolvendo acentuadamente no Brasil”, o alpinismo, registrando a imagem de Miguel Inácio Jorge e o passeio que tinha feito ao Dedo de Deus, com um grupo de crianças, em 17 de julho daquele ano. Nomeou ainda os quinze clubes de excursionistas que relacionavam-se com o Parque, entre eles o CERJ, do Rio de Janeiro; CESO, de Teresópolis e o CEP, de Petrópolis.

     Mas, a informação que mais me interessou foi um registro que a revista fez, na página 31, onde enumerou os hotéis e “estabelecimentos de hospedagem” existentes em Teresópolis em 1949. Dez anos antes da abertura da Estrada Direta, quando a nossa rede hoteleira sofreria grande colapso, Teresópolis tinha cerca de 25 mil habitantes e 26 estabelecimentos de hospedagem. Dez anos depois, no Censo de 1960, já contava com 52.318 habitantes e 7 estabelecimentos de pouso a mais, sendo 23 hotéis e 10 pensões. Os hotéis de 1949, em Teresópolis, segundo a Revista do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, são os seguintes: Higyno, Le Magourou, Várzea, Teresópolis, Residência, Brasil, Flórida, Atlântico, Bragança, Rever, Califórnia, São Moritz, Fazenda da Paz e Rancho Santo Antônio; as pensões, Pomar, Pinheiros, Vera Cruz, Aguiar, Iris, Rio D'Ouro, Serrana, Vielle France, Viúva Bastos, São Geraldo, São Jorge e Pensão do Alto.

     Cinquenta anos depois, com uma população próxima de 170 mil habitantes, segundo a Secretaria Municipal de Turismo temos hoje entre hotéis, pousadas e albergues, 108 estabelecimentos de hospedagem.

     Criado em 1939, pelo decreto 1822, de 30 de novembro, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos foi idealizado pelo engenheiro Armando Vieira e, criado pelo presidente Getúlio Vargas, era administrado, à época, pelo engenheiro agrônomo Gil Sobral Pinto, sendo ministro da Agricultura, então responsável pela unidade, Daniel de Carvalho.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

   Veado, quando a emenda fica pior que o soneto

Cine Eden e Grande Hotel, na antiga Siqueira Campos (ex-Veado, hoje Guaçuí)
     Quando tinha uns doze anos de idade, e trabalhava num bar em Muriaé, ouvi o garçon dizer pra mãe dar um abraço na tia Fé. Embora tímido e respeitoso, arrisquei um abuso, e perguntei pra ele, já um senhor, qual era mesmo o nome da tia. - É Fé, menino. Minha mãe se chama Esperança e a outra tia é Amor.

     Fé, Amor e Esperança. Era isso ou seriam três marias,
das Dores, da Graça ou José...


    Coisas do interior do Brasil, muito comum no Nordeste e nos cafundós de Minas Gerais.

     Mas, é no Espírito Santo que encontrei uma das histórias mais interessantes por causa de um nome. E não é nome de gente. É que denominaram Veado um distrito emancipado de Alegre. Pior, depois que veado passou a significar gay, nos anos 1930, resolveram trocar o nome da cidade, homenageando o másculo tenente Siqueira Campos, líder da marcha dos 18 do Forte de Copacabana, nome que também não foi bem aceito pela família do militar quando passaram a chamar Siqueira Campos de ex-Veado. Hoje, ex-Veado e ex-Siqueira Campos chama-se Guaçuí e, por lá, sabe-se, não é bom brincar com o assunto se estiver desarmado.

     Quando ouvi o caso tempos atrás, decidi conferir a história, afinal sempre soube que não existe ex-veado. Mas vi que tem sim e, buscando endender o caso, encontrei um texto do professor Luiz Antonio Simas que merece reprodução. Então, com o tempo curto para tantas outras coisas, posto aqui a bem escrita história, que está no blog hisbrasil.blogspot.com.br

     UM NOME PROBLEMÁTICO

     No início do século XIX, homens vindos de Minas Gerais, liderados pelo Capitão-Mor Manoel José Esteves de Lima, fundaram um povoado na região serrana do Espírito Santo. O povoado chamou-se, desde 1866, São Miguel do Veado, em homenagem ao santo e em referência ao rio Veado, que passa pertinho da localidade. São Miguel do Veado foi distrito de Cachoeiro de Itapemirim e de Alegre, até emancipar-se, em 25 de Dezembro de 1928.

     Não se sabe quem foi o autor da ideia, mas o fato é que o município emancipado recebeu o nome, puro e simples, de Veado. Em pouco tempo, e em virtude da maldade e da malícia dos habitantes das cidades vizinhas, a simpática denominação passou a desagradar os habitantes do novo município.

     Considerou-se , então, prudente trocar o nome. Veado passou a se chamar Siqueira Campos, em homenagem ao tenente rebelde e líder da marcha dos 18 do forte de Copacabana. Como ainda não havia sido criado, naquele início dos anos 30, o Código de Endereçamento Postal, o valoroso serviço do Correio, para evitar extravio, identificava a cidade como Siqueira Campos, ex-Veado.

     Acontece que Siqueira Campos, que tinha fama de machão, era o autor de uma frase célebre sobre os políticos da velha República : - Todo político é corno, veado ou ladrão. Imaginem então a revolta dos fãs de Siqueira Campos, morto precocemente, quando souberam do epíteto que o herói do tenentismo tinha adquirido. Tanto atazanaram, com abaixo-assinado, passeata e o escambau, que o nome da cidade mudou novamente. A solução encontrada, admitamos,foi porreta; o município passou a se chamar Guaçuí, que em tupi-guarani significa...veado!

     Quem não gostou nada dessa situação foi a concessionária de eletricidade do local, que atendia também a cidade de Alegre e teve que enfrentar tremenda burocracia para trocar de nome. Diante das ameaças de uma população indignada, e cansada de ser sacaneada pelos habitantes de outros municípios, a empresa capitulou, enfrentou a burocracia e abandonou o sensacional nome antigo - Companhia de Eletricidade Alegre-Veado.

   O hotel de Madame Le Magourou e a Teresópolis nos anos 1930

O hotel Le Magourou num de seus melhores registros. A imagem revela a imponência da
av. Delfim Moreira, antes rua Provincial, nos anos 1930
     Inaugurado em 24 de dezembro de 1922, na avenida Delfim Moreira, 1190, o novo prédio do hotel Le Magourou foi ao chão em setembro de 1983, depois de longo tempo de abandono. A imponente construção, cartão postal que encantava os visitantes de Teresópolis na primeira metade do século passado, chegou a ser utilizada como posto avançado de atendimento do Hospital das Clínicas e, extinto, deu lugar à moderna loja da Casa HG Materiais de Construção.
     Point de encontros políticos e reuniões importantes - no Magourou, nos anos 20 e 30, ocorriam as reuniões políticas do grupo de Olegário Bernardes - o hotel estava entre os mais importantes da época, afluindo para ele e o Várzea, na Várzea e para o Hygino e Rizzi, no Alto, os ricos da época, inclusive autoridades em visita à Teresópolis. Hóspedes mais modestos, ou que não se importavam com o glamour e o luxo, frequentavam as pensões, também muito bem instaladas. “Sempre guardei boas lembranças do Magourou. Se me lembro, e como! das tertúlias e dos saraus que ali se realizavam: uns recitando; outros cantando; outros ao piano situado na sala de estar, nos deleitando com músicas sentimentais! Como eram agradáveis esses momentos! E como eram atenciosos seus empregados: D. Carlinda, a cozinheira; Juvenal, ajudante de cozinha; Alberto, um dos garçons; os porteiros Carlos e Alceu; América e Mathilde, arrumadeiras e Manoel Pereira da Silva, atendente de limpeza”, relata o escritor e poeta Amadeu Laginestra, em seu livro Evocações, editado em 1975.
     O Hotel Le Magourou era de Josephina Le Magourou, dona da “Pensão de Madame Le Magourou”, que funcionou numa casa quase em frente, na chacara de Alfredo Balthar, onde surgiu a Casa de Saúde NS de Fátima, antes de mudar-se para o antigo hotel Paiva e Carneiro, casa baixa, chegada à rua, antiga delegacia, e Câmara Municipal a partir de 1899. A “casa baixa”, no número 1240 da avenida Delfim Moreira, que chegou a ter o nome de hotel Le Magourou antes do prédio novo ficar pronto, serviu de casa de apoio aos funcionários do hotel. Também foi derrubada, um pouco antes, e em seu terreno foram levantados dois prédios de apartamentos, guardando na ponte em frente a data 1926, marcando o período áureo daquele trecho então bucólico.
Madame Le Magourou morreu logo depois da inauguração de seu magnífico empreendimento, em 22 de julho de 1927, ficando o hotel sob a responsabilidade do marido, Jules Le Magourou, já com 76 anos de idade. Irmã de Edmond Black, comerciante no Rio de Janeiro, era mãe de Alice Walsh, casada com Francis Walsh, funcionário da Light; Maria Santa Cruz, casada com o capitão-tenente Santa Cruz; Laura Magourou e Margarida Magourou.
     Segundo o jornal O THEREZOPOLIS, Josephina Le Magourou “desfrutava em todas as camadas sociais de Therezopolis da mais viva simpatia e estima, pelo seu trato lhano e pelos seus apreciados dotes de coração, sucumbindo em avançada idade, mas, apesar disso ainda com espírito vivo e inteligente”. Devota de carinho especial às coisas da cidade, morava há muitos anos em Teresópolis, tendo assistido a evolução da “vilhota” que conhecera em fins do século anterior, representando sua perda um “claro impreenchível para os teresopolitanos”. Seu enterramento ocorreu no cemitério municipal, com grande acompanhamento, de pessoas da cidade e outras do Rio de Janeiro, “vendo-se sobre seu féretro muitas coroas e ramos de flores”.
     Com a morte de Jules, o Hotel Le Magourou mudou de mãos, passando à propriedade de Laura e Emille Ducumun. O hotel entraria em declínio no final dos anos 50, quando Ducumun cedeu o seu anexo aos médicos que abriram a Casa de Saúde Nossa Senhora de Fátima. “O anexo do hotel Le Magourou, com cerca de 20 quartos e situado dentro de um grande terreno arborizado, vivia constantemente vazio. Um verdadeiro desperdício, para mim, principalmente, que sonhava poder aproveitá-lo mais nobremente... Os queridos amigos, Laura e Emille, entenderam, então, que era hora de quitar sua dívida de gratidão para com aqueles que os atenderam nas horas difíceis por que passaram e ofereceram-me o prédio do anexo do Hotel em condições vantajosas para que pudéssemos adaptá-lo para uma Casa de Saúde.   Imediatamente, convidamos mais alguns colegas e formamos uma equipe de dez profissionais com as especialidades mais solicitadas”, relata sobre a ocupação do Anexo do Magourou o médico Arthur Dalmasso, no “Livro de Ocaian”.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

   Hoje é aniversário do meu irmão Laércio, que mora em Minas Gerais

Eu e Laércio, no Cultura de Raiz, domingo na Casa de Cultura

     Saí de casa com dezesseis anos de idade. Morava em Muriaé, com meus pais e dois irmãos: Wantuil, de 18 e Wandercy, de 13. Meus outros 7 irmãos - Laércio, Lucy, Denilda, Carmem, Alércio, Carlinhos e Dirce - já estavam casados. Era 1974 e fui para Três Rios, onde morei sozinho, ficando também um tempo na casa do Alércio, que era 10 anos mais velho que eu. Coincidentemente, fazemos aniversário juntos - somos de 1.o de outubro, eu de 1958 e ele de 1948.

   Fiquei até março de 1977 naquele lugar onde trabalhei em jornal, gráfica e rádio. Vim a Teresópolis pela primeira vez em fevereiro daquele ano, acompanhando um grupo da igreja Batista. Gostei de uma garota aqui e, como nada me prendia onde morava, me mudei pra cá. Morei no Jardim Pinheiros por um tempo, e no Comary por outro, até que me casei em 4 de março de 1978, indo residir com Linea numa casinha de aluguel no Morro dos Pinheiros.

   Se o namoro é um filme, o meu foi um curtametragem. Depois do flert e rápido namoro, noivado e, seis meses depois, o casamento. Rápido também - respeitando-se os prazos de praxe, claro -, vieram os filhos, o primeiro nasceu em fevereiro de 1979.

   Enquanto eu tinha morada em Três Rios e não tinha namorada em Teresópolis, de dois em dois meses visitava meus pais, já com mais de 60 anos. Depois que conheci Linea, essas visitas rarearam e chegava a demorar ano, o que me incomodava mas não tinha como ser diferente. Eram tempos difíceis e, além de criar os filhos, e ainda trabalhar como empregado, estava montando o meu negócio.

   Já nascidos os quatro filhos, e isso se deu nos 10 primeiros anos de casado, voltei em Minas para visitar meus pais. Era dia de casamento e acabei indo à igreja Metodista, onde meu pai era zelador e diácono. Meu irmão mais velho conhecia todos os membros, e fazia questão que eu desse os parabéns aos noivos, mais amigos dele que meu.

   Era 1990 e cheguei num Opala 1986, duas portas, "quase do ano" que tinha acabado de comprar. Tinha a cor bege, bancos de veludo, faróis amarelos e nenhuma morça. Acho que foi minha única viagem para Minas com ele. Perdi essa raridade ainda naquele mês, quando resolvi vender tudo que tinha de valor afim de juntar dinheiro para comprar uma máquina nova para o jornal, que já tinha criado em 1988. Quando digo perdi, é porque perdi mesmo. Naquele ano, de posse do Collor, em março, estava com todo o meu dinheiro no banco quando a poupança foi confiscada, ficando sem carro e sem máquina. Muitos foram roubados pelo governo naquele ano e o que doeu para tantos machucou mais em mim porque não se tratava de dinheiro poupado, mas de dinheiro retirado de outros compromissos e guardado para um sonho que não se concretizaria..

   A Isabel Cristina, minha filha mais nova e sempre agarrada à mãe, tinha um ano de idade. E, com apenas três anos, a Emille ainda queria o meu colo. O Wanderley Júnior, tinha 11 anos e, apesar de bastante independente, estava sempre por perto, como também eu fazia estar o Raphael, que tinha 8 - e porque vivia aprontando não o perdia  de vista.

   Apesar de ser o mais velho, meu irmão Laércio nunca deixou de ser criança. Ainda hoje vive aprontando e tudo pra ele é motivo de brincadeira. Se você cruzar as pernas e deixar os chinelos soltos, um deles vai sumir.  E, se fechar os olhos perto dele, quando for sentar-se à mesa é bom conferir se ele não arrastou a cadeira.

   Noite quente dentro do modesto templo, fomos para a recepção num varandão dos fundos. Meu irmão foi me apresentando aos seus amigos, alguns que também me conheciam embora eu não lembrasse mais bem deles.
- Esse aqui é o Wanderley, lembra? O do meio, que saiu de casa ainda criança. Foi para Teresópolis onde está muito bem, disse.
- Lembro pouco dos irmãos mais novos. E, me perguntou o amigo do Laércio, o que eu fazia...
Antes que eu respondesse, e aparentemente orgulhoso, meu irmão sentenciou:
- Rapaz, esse meu irmão está muito bem. Mora naquela cidade que não faz calor, e conhece todo o pessoal importante de lá. Quando saiu daqui não tinha nada e hoje... já tem quatro filhos.

   Meu irmão é incorrigível e, talvez por isso, seja tão querido. Está sempre presente e, ainda hoje, com os seus 70 e poucos anos - o Laércio faz aniversário hoje, dia 7 de fevereiro! -  de vez em quando, do nada, ainda apronta uma gozação que não conhecemos. Essa, que aprontou comigo vinte e tantos anos atrás, nem é uma brincadeira. Costumo dizer que foi uma das maiores verdades que ele, criança confessa que é, já disse. Afinal, que riqueza maior existe senão os filhos?

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

   Pró-Arte, de núcleo cultural à escola

No letreiro da Fundação Pró-Arte, a mostra de quem ocupa o espaço, uma escola universitária

   
Prefeitura, governo do Estado e diversos outros contribuiram para construção do prédio 
 Triste fim está tendo a Sociedade de Artes, Letras e Ciências Pró-Arte. Seu prédio, que irradiou cultura por quase duas décadas a partir dos anos 1970, fica no bairro do Alto. Está abandonado, completamente pichado, e há vários anos vem servindo como depósito de alunos de uma universidade, perdendo gradativamente sua finalidade cultural. Reconhecida de utilidade pública municipal, estadual e federal, a Pró-Arte foi construída com dinheiro público para atender a cultura e, encampada por uma fundação sem fins lucrativos, a FESO, é ocupada hoje por um braço da instituição que visa lucro, a Unifeso, transformando um espaço criado para as artes num campus universitário.


     A desgraça da gloriosa fundação criada nos anos 1950 começou a partir de 1987, após a morte de seu mentor, o Comendador Theodor Heuberger. Disposta como uma garota bonita e tímida num salão de baile, viveu à própria sorte, e acabou nas mãos de tutores que viram beleza apenas nos seus dotes de menina rica.

     Viúva do Comendador, e antes de ser encampada por uma escola, a fundação de arte ainda tentaria encontrar outro amante da cultura nos braços da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e da própria prefeitura municipal. Mas, embora a fusão com a UNI-RIO fosse afim, esta não interessou-se o suficiente pela beleza cultural que a entidade oferecia ao tempo em que a prefeitura, além de maltratá-la, até furtou-lhe ornamentos, descuidando-se do seu bonito corpo, motivos que levaram seus conselheiros a ofecerem-na, por mísera dívida, sendo então absorvida pela Fundação Educacional Serra dos Órgãos, que a denominaria, inicialmente, “Unidade FESO/Pró-Arte Comendador Heuberger”, depois, “Núcleo Cultural Feso-Pró-Arte” e, finalmente, “Unifeso - Campus Pró-Arte”, retirando-lhe enfim, e ao arrepio da lei, suas características culturais e artísticas até no nome.

     A encampação parecia um bom negócio e previa claramente a continuidade do fim cultural da instituição, não permitindo-se outra atividade sobre os despojos de Heuberger. Estavam previstas a criação de um centro cultural com escolas de arte, casa do estudante e atividades dirigidas ao desenvolvimento artístico, cultural, pesquisa e difusão da música em geral, das ciências e das letras. A administração das atividades artísticas, pedagógicas e culturais seria levada a efeito por um conselho integrado por 7 membros de saber cultural, e entre eles estavam pessoas de ilibada reputação. Mas, aos poucos, o exigido fim cultural da fundação foi se perdendo. A Pró-Arte virou um depósito de estudantes, e sua gestora, a FESO, além de deturpar-lhe as funções originais, e obrigatórias, transferiu o bem para o Unifeso, que recentemente reduziu ainda mais as últimas atividades artísticas que a entidade oferecia, motivando a intervenção do Ministério Público após denúncia feita pelo Conselho Municipal de Cultura, e do judiciário, onde corre ação popular promovida por um grupo de amigos da arte no município.

     Construído com recursos dos governos municipal, estadual e federal, e projetado pelo renomado arquiteto Camilo Michalka, o imponente edifício da Pró-Arte tem linhas arquitetônicas sóbrias e funcionais, com 4 andares, contendo 25 salas de aulas para diversas atividades culturais, além de dormitórios com capacidade para abrigar comodamente cerca de 150 pessoas. O prédio fica na esquina das ruas Alfredo Rebello Filho com Gonçalo de Castro, numa magnífica área de 2.960m2, terreno doado pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, sendo governador o major Paulo Torres, que tinha sido senador, e prefeito de Teresópolis em 1936. A pedra fundamental do interessante edifício foi lançada em 6 de fevereiro de 1966, e a inauguração feita em 1973, quando a tímida entidade cultural que teve suas atividades iniciadas em 1950, num sobrado da travessa Portugal, 14, passou a oferecer cursos permanentes de ballet e piano, escolinha de artes com desenho e pintura, e oficinas de artesanato, abrigando ainda o Coral Municipal.

     Além de descumprir um contrato de encampação que não previa a utilização da Pró-Arte como escola, aproveitar-se de bem apropriado dando a ele outros fins, e não ter o devido zelo pelo prédio que ocupa, a direção da Feso e o conselho diretor do extinto “Núcleo Feso Pró-Arte”, hoje “Unifeso Campus Pró-Arte”, cometeu também grande injustiça eliminando o nome do fundador da instituição Pró-Arte, denegrindo a memória do cultuado teresopolitano que ousou o sonho de transformar Teresópolis a cidade dos festivais.

     Alemão de Munique, nascido em 1898, Theodor Heuberger chegou ao Brasil em agosto de 1924, junto com a I Exposição Alemã de Arte e Artesanato, iniciando intensa atividade artística, animado por dois amigos: o musicólogo e compositor Frei Pedro Sinzig e a pianista e camerista Maria Amélia de Rezende Martins. Organizou exposições e ganhou notoriedade entre os grandes artistas da época, entre eles, Portinari, Lazar Segall, Cecília Meirelles e Alberto Guignard. Fundou a Casa e Jardim - Artes e Ofícios SA, com lojas no Rio de Janeiro, São Paulo e Teresópolis. Criou a Revista Intercâmbio, escrita em português, alemão e inglês, procurando  divulgar a cultura artística universal em todo o mundo.

     Theodor Heuberger naturalizou-se brasileiro no Governo do Presidente Getúlio Vargas e foi condecorado pelos governos da Alemanha, Áustria e Brasil. Recebeu o título de “Comendador da Ordem do Mérito do Estado do Rio de Janeiro”(1974) e os diplomas da Prefeitura Municipal de Teresópolis de “Honra ao Mérito”(1966) e de “Menção Honrosa”(1973). A Câmara Municipal de Teresópolis, outorgou-lhe o título de Cidadão Honorário de Teresópolis, em 6 de julho de 1965, em homenagem de reconhecimento aos seus altos serviços prestados a esta cidade e às suas realizações pela cultura em geral no Brasil.

domingo, 26 de janeiro de 2014

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

   Zequinha e Quinzinho, os artistas que Teresópolis ainda não homenageou

Zequinha e Quinzinho com Grande Otello, Ankito e Ronald Golias - no filme "Garota Enxuta"

     O processo de colonização de Teresópolis foi iniciado nos anos 1820, com a chegada do inglês George March. Antes dele, já viviam aqui outros imigrantes portugues e, depois, vieram os suiços, italianos, e, entre tantos, outros ingleses e portugueses. A cidade se formou, emancipou-se e cresceu. Mas, ainda nos anos 1960, depois de aberta a estrada direta para o Rio de Janeiro, mais gente de fora chegava. Era o período da imigração interna, com os forasteiros de Minas Gerais, dos estados do Nordeste, ou mesmo do interior do Rio de Janeiro. Todos queriam tentar a vida em Teresópolis, a cidade do Dedo de Deus.

     Foi nesse tempo pós estrada direta que desembarcaram em  Teresópolis  dois homenzinhos que encantaram a todos com a sua irreverente arte. Filhos de José Manso Filho, 1,83cm e Paulina Faria, de 1,65cm, e irmãos de Déborah, Margarida, Lucy e Sebastião, todos de estatura mediana, Zequinha tinha 1,20cm de altura e Quinzinho, 1,13cm. Artistas de cinema, e músicos de grande qualidade, formaram a dupla Zequinha e Quinzinho e, além de viverem dos shows, faziam também apresentações em comícios e programas de rádio, e mantinham um serviço volante de propaganda.

     “Viemos para Teresópolis porque estávamos duros. Chegando aqui, procuramos os irmãos Pimentel, do Cine Arte. Mas não falamos a eles que estávamos na pior. Mentimos sem maldade e dissemos que a nossa intenção era a de fazer uma tournê, começando por Teresópolis, depois Friburgo, Petrópolis e Cachoeiras do Macacu... E, por acaso, passava um filme nosso no cinema, o “Garota Enxuta”. Aí deu para tirar o pé da lama...”, disse Quinzinho à revista Culturarte em 1986. O irmão Zequinha era casado com Regina Gomes Manso e pai de Fernando, Rita de Cássia e Joaquim - todos de estatura normal, Morreu em 1.o de julho de 1979, quando iria se apresentar num show no interior do município, desfazendo-se a dupla que tanto encantou os teresopolitanos.

     O primeiro show de Zequinha e Quinzinho foi no Cine Arte. Segundo disse Quinzinho ao Culturarte, parecia que tinham sido abertos os portões dos colégios da cidade, indo todo mundo para o Alto. A dupla fez ainda muitas apresentações no Cine Vitória, e no Alvorada, mantendo quadros fixos nos programas “Viva o Gordo” e “Chico Anísio”, da rede Globo. Quinzinho foi o robô Aristides da novela Transas e Caretas e teve papel importante no filme “Ali Babá e os 40 Ladrões”, participando ainda de vários filmes de Mazzaropi, entre eles “Betão Ronca Ferro”, “Três Cangaceiros” e “Paraíso das Solteironas”. Os dois trabalharam com renomados artistas brasileiros, entre eles, Renato Aragão, Grande Otello e Ankito.

     - “Fui a Niterói buscar a mudança dessa dupla, isso em 1965. Estávamos em dois carros da prefeitura e trouxemos a família e seus pertences para uma casa no bairro São Pedro. O prefeito da época, Flávio Bortoluzzi, deu contratos na prefeitura para os dois. Lembro como se fosse ontem. Paramos num restaurante na Orla de Niterói, onde eles fizeram um show que agradou muito. Eram duas pessoas de grande coração e sempre gratas a quem os ajudava. Um dos filhos de Zequinha, o Fernando Elias, por exemplo, tem seu nome em homenagem ao médico Fernando Morgado e ao vereador Elias Zaquem, de quem os dois gostavam muito. No sepultamento de Zequinha deu muita gente. No de Quinzinho, nem tanto”, disse Waldair Queiróz, que trabalhou com os dois na prefeitura.

     Zequinha e Quinzinho eram mineiros de Cambuquira, e sempre gostaram de trabalhar nas campanhas políticas. Numa delas, fizeram muito sucesso, atuando como bonecos ventríloquos nos comícios. “Nós trabalhávamos para todos os políticos, inimigos dos inimigos, amigos dos amigos. Político é assim, um briga com o outro mas está sempre de bem. Político tem que ser político, tem que ter cabeça e psicologia para perder um amigo se quiser ganhar dez. Eu já fui candidato mas houve uma traição. Deixa pra lá”, disse em entrevista.

     Em Cambuquira, onde nasceram, esses artistas teresopolitanos são tratados com honrarias. Ganharam até blog para contar as suas aventuras e história, veja em Zequinhaequinzinhoblogspot.com.br. Em Teresópolis, falta ainda quem dê conta de suas memórias. Que tal o nome de uma rua para os dois? Seria a rua Zequinha e Quinzinho, uma homenagem muito justa a esses dois teresopolitanos que dedicaram parte de suas vidas à nossa cidade.