segunda-feira, 17 de março de 2014

Quiosque das Lendas, o Mirante da Granja Guarani

O Quiosque das Lendas nos anos 1980 - degradação aumentou a partir do "tombamento"
   Atrativo turístico, sítio histórico que remonta a origem dos bairros de Teresópolis, local que transpira arte e cultura... Apesar de uma importância que engloba vários interesses públicos, e de tantas promessas pela sua recuperação, o Mirante da Granja Guarani está em ruínas. “Quem visita o Mirante sofre um impacto: primeiramente, pela beleza da obra que não se supõe tão grandiosa; segundo, pela depredação de vândalos que não respeitam o patrimônio histórico... A valorização do Mirante da Granja Guarani, conduzindo-o de novo às raízes de seu trabalho, vem, por certo, na direção da cultura, da arte, e do transbordamento histórico”. Apesar de atual, o texto foi escrito há mais de 20 anos, publicado no livro “Reminicências”, do escritor Osiris Rahal, em 1987.

   “Situada entre os caminhos sinuosos da Granja Guarani”, onde se desfruta de um amplo e belo panorama da Serra dos Órgãos, da CBF e do bairro do Alto, a construção neocolonial ainda guarda resquícios da beleza que provocou visitantes do mundo inteiro e de veranistas, encantados com o seu estilo arquitetônico de influências coloniais mexicanas e mouriscas. Também conhecido como “Quiosque das Lendas”, o bem é composto por dois corpos interligados por um avarandado coberto, encimando uma grande elevação que forma uma espécie de platô, o mirante tem cobertura em telha-canal com coruchéus, que remetem aos caramanchões por sua forma circular, daí ser também conhecido como “carra-manchão” da Granja Guarani.

   Centro das admirações dos que se preocupam com a memória, a interessante construção emoldurada por colunas toscanas de capitel simples e arcos de alvenaria revestidos com azulejos portugueses é obra do engenheiro teresopolitano Carlos Nioac de Souza. Produzidos em Lisboa no ano de 1929, os azulejos que revestem o mirante foram pintados  pelo renomado artista Jorge Colaço (1864-1942) e contam quatro lendas indígenas: O Dilúvio”, “O Anhangá e o Caçador”, “A moça que saiu para procurar marido” e “Como apareceu a noite”. O autor dos traços fortes, em azul sobre branco, foi um dos maiores azulejistas de Portugal no princípio do século XX, com  trabalhos expostos desde o Palácio de Windsor na Inglaterra, até o Centre William Reppard na Suíça, passando por países como Cuba, Argentina, Brasil e Portugal.

   Tombado em janeiro de 1988 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - INEPAC, que o catalogou como “uma pequena jóia neocolonial”, o Mirante da Granja Guarani é “protegido” também pela Lei Orgânica Municipal, de 1990. Mas, embora tenha grande importância histórica para o município, além de seu enorme apelo turístico e cultural, o prédio representa hoje apenas um monumento ao descaso das autoridades que, ao longo dos últimos trinta anos, deixaram que ele chegasse ao deplorável estado em que se encontra.

   AS QUATRO LENDAS DO QUIOSQUE
   A lenda “A moça que saiu para procurar o marido” relata a história da índia guarani Nheambiú, que se apaixona pelo guerreiro tupi Cuimbaé, prisioneiro dos guaranis. E como ela, após saber da morte de seu amor, se transforma no pássaro urutau, que entoa durante a noite um canto parecido com um lamento humano”.

   Em “O dilúvio”, a mitologia indígena trata de uma lenda muito parecida com o dilúvio bíblico de Noé. Na versão guarani, Tamendonaré (Tamandaré) avisado por espíritos antepassados que haveria um grande dilúvio, se refugia com sua família em cima de uma grande palmeira (pindorama), se alimentando também de seus frutos. Sobrevivendo ao dilúvio, Tamendonaré repovoa o mundo, com os guaranis se considerando seus descendentes diretos. 

   Em “O anhagá e o caçador”, Colaço retrata o terrível espírito protetor dos animais nas florestas brasileiras. Anhangá, que por vezes se disfarça ele próprio de animal para surpreender caçadores, principalmente aqueles que não respeitam animais ainda recém-nascidos ou fêmeas prenhes. 

   Na lenda “Como a noite apareceu”, conta-se a história da filha do Cobra Grande e a curiosidade dos três emissários de seu novio, que abriram o o côco de tucumã e liberaram assim  a noite sobre o mundo, com pássaros que cantam ao amanhecer e outros ao anoitecer.

domingo, 9 de março de 2014

FERNANDO MARTINS, O PINTOR DE TERESÓPOLIS

A partir da direita, Conceição e Ana Maria, do Serviço de Patrimônio Histórico Municipal;
Amadeu Laginestra, Gilberto Nascimento, João Nogueira, Camilo Michalka, Zezinho, ex-secretário
de Cultura Elias Martins e José Maria Carneiro, atrás deste, Arthur Dalmasso, na homenagem
ao pintor Fernando Martins, em 1990, no hall da Prefeitura Municipal
   Nicolau Facchinetti, Manoel Madruga, Eliseu Visconti, Manoel Santiago... Sami Mattar, Camilo Michalka, José Ramon, Alexander Robin... E tantos outros artistas que pintam Teresópolis.

   Ao longo dos anos, nossa região vem encantando muitos pintores. São vários, todos eles reproduzindo as imagens que retratam as montanhas ou reportando a cidade que se transforma e oferece cenários inéditos a cada dia. 

   Muitos paisagistas se destacaram ao mostrar nossa região para o mundo. Mas, entre tantos, e pelas tantas telas produzidas, Fernando Martins se projeta, e se destacou, ganhando o título de “pintor de Teresópolis”. Nascido em Portugal, o artista veio ainda criança para o Brasil, onde fez seus primeiros estudos. Expôs pela primeira vez, no Salão Nacional de Belas Artes, em 1933, com apenas 22 anos. Jornalista, mostrou as coisas bonitas de Teresópolis para o mundo através de suas crônicas e textos no jornal O Globo, e em diversas revistas.

   Português do Porto, o pintor de Teresópolis viveu a adolescência no bairro Santo Cristo, no Rio de Janeiro. Jovem, ocupou-se de vários trabalhos, estudou à noite, e iniciou-se nas artes plásticas no Liceu de Artes e Ofícios, onde fez curso de desenho e modelagem. Frequentou as rodas de artistas que se reuniam na Casa Cavalier e no Café Gaúcho, na rua São José, e conheceu os grandes pintores do Rio de Janeiro de sua época, entre eles, Manoel Santiago, Dacosta, Rescala, Malagoli, Pancetti e o professor Armando Viana, que seria seu grande amigo, mestre e incentivador.

   Desencontrado no casamento e preocupado com a preservação da saúde, Fernando Martins decidiu  abandonar tudo que tinha no Rio de Janeiro e comprou passagem - somente de vinda - no trem que o trouxe para Teresópolis.

   "Saltando na Estação do Alto, Fernando Martins hospedou-se a poucos metros dalí, na Pensão Serrana, de propriedade do mecenas Celso Moreira - que aceitava receber o pagamento em obras de arte. Homem insinuante e de fácil comunicação, o pintor logo fez amigos nos vários segmentos comunitários, especialmente naqueles mais ligados à arte e cultura. Ingressaria mais tarde na Academia de Letras e seria um dos fundadores da Academia Cultural e Artística, assumindo a responsabilidade didática de ministrar cursos de desenho e pintura. Amor pela terra à primeira vista, saiu a campo e logo descobriu as cores do arco-iris nas hortênsias, sananduvas, buganvilias, acácias e quaresmeiras, que passaram a ter lugar cativo e alternado na composição de suas típicas paisagens serranas. Passou, então, a ser qualificado como o 'pintor de Teresópolis', título surgido espontaneamente na voz do povo, que lhe reconheceu talento e inspiração".

   Aqui, preferiu as flores, as serras e rios, e guardou as cores da cidade nos quadros que os turistas faziam questão de levar de lembrança, repercutindo a beleza do lugar. Em 1949, recebeu da prefeitura a incumbência de pintar cinco grandes painéis iconográficos que ainda hoje decoram as paredes mais nobres da prefeitura Municipal. 

   Segundo os críticos de sua arte, “não se pode dizer que essas sejam suas melhores obras, já que as grandes dimensões (2,80x1,85) e o próprio conceito de painel/mural determinavam uma simplificação na fatura e dificultavam um trabalho esmerado, desde que o pintor, inferiorizado ante o gigantismo da tela, defrontava-se com os problemas decorrentes  da perspectiva e da distância. Mas são, sem dúvida, as suas obras mais grandiosas, mais conhecidas e mais populares, dignas da terra e do povo que o pintor quis homenagear, retribuindo a carinhosa acolhida que, de uma e de outro, sempre recebera”.

   Cidadão honorário de Teresópolis, Fernando Martins viu sua fama ultrapassar as nossas fronteiras quando seus quadros chegaram às mãos de Craveiro Lopes, de Portugal, e do presidente norte-americano Dwight Eisenhower. No auge da fama, o pintor morreu precocemente, aos 54 anos, em 1.o de julho de 1965. No ano seguinte, numa justa homenagem, virou nome de rua na Várzea, sendo ainda homenageado, em 1987, com um livro há muito tempo reclamado, contando sobre a sua vida cheia de surpresas e sua obra, “Fernando Martins, o pintor de Teresópolis”, editado pela Arte Hoje Editora, presente do marchand e professor de artes José Maria Carneiro. Em julho de 2011, em comemoração ao seu centenário, uma exposição na Casa da Memória Arthur Dalmasso mostrou sua obra, sendo muito visitada.

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  FERNANDO MARTINS NA CASA DE PORTUGAL
   Nascido tripeiro, na cidade do Porto, aos 18 de março de 1911, veio para o Brasil ainda muito criança. Uma doença, ainda rapaz, o trouxe para Teresópolis, de onde nunca mais saiu, aprendendo desde cedo a amar sua natureza, as montanhas, os rios, as florestas e as flores.
   Iniciou seus estudos de desenho no Liceu Literário Português, no Rio de Janeiro, em 1928, e em 1930 passou ao Núcleo Bernardelli para estudos de desenho figurado.
   Em 1931, com o Professor Modestino Kanto, estudou modelagem e, no ano seguinte, iniciou-se em pintura como o Professor Armando Viana.
   Fez sua primeira exposição no Salão Nacional de Belas Artes aos 22 anos de idade, em 1933, tendo em 34 conquistado Menção Honrosa no Mesmo Salão.
   A partir daí, Fernando Martins conquistou, sem parar, diversos prêmios e menções honrosas em salões de inúmeras cidades brasileiras, tendo feito várias exposições pessoais, no Rio e em Teresópolis, a partir de 1944, sempre com grande número de quadros, apreciadíssimos.
   Seus trabalhos sobre Teresópolis levaram a fama das belezas da cidade a diversos cantos do mundo, havendo obras suas em coleções particulares, nos Estados Unidos, Canadá, países da Europa e da América do Sul.
   Fernando Martins era um poeta da cor. Seus quadros retratam principalmente a luz, penetrando por entre as folhagens, furando a penumbra tal como sua alma sofrida de artista necessitava da luz da esperança de dias melhores, traduzida por uma angústia existencial.
   Fernando Martins foi também um cronista apreciado, tendo feito parte da Sociedade de Letras do Brasil, colaborando com os seus escritos em diversos órgãos da imprensa.
   Muito ligado à comunidade, tomou parte em inúmeros movimentos e eventos, estando sempre presente em obras de beneficência, doando telas suas para que, leiloadas ou vendidas, revertessem em benefício dos mais carentes.
   Em 1960 retornou a Portugal, fixando sua obra em três fases distintas: a anterior e a posterior à volta à Pátria Mãe, e a portuguesa, de onde voltou com uma coelação de pinturas que retratavam os aspectos peculiares da terra lusíada, muito disputada, por sinal, entre brasileiros e portugueses.
   Fernando Martins deixou nosso convívio em 1º de julho de 1965, com apenas 54 anos, legando à posteridade uma obra que, com suas cores e formas vibrantes, o torna presente entre aqueles que possuem um quadro seu, assim como presente está nas magníficas telas gigantes, em exposição permanente nos saguões e salões da Prefeitura Municipal de Teresópolis, terra que tanto amou.

* Texto do médico Fernando Morgado, para a exposição retrospectiva em comemoração ao “Jubileu de Prata” da Casa de Portugal de Teresópolis, em 1º de dezembro de 1984.

sexta-feira, 7 de março de 2014

No dia da Mulher, o aniversário de Helena Turl

A enfermeira Helena, em 11 de agosto de 1984, na campanha de vacinação, nos Frades
   Oito de março, está sendo lembrado hoje o Dia Internacional da Mulher. As comemorações serão muitas, no mundo inteiro, e Teresópolis participa da festa até semana quem vem, quando ocorre no dia 14, programação em lembrança do dia na praça Balthasar da Silveira, na Feira da Mulher. Duas exposições abertas a partir deste sábado, na Casa de Cultura Adolpho Bloch e Casa da Memória Arthur Dalmasso, “Olhar Feminino” e “Mulheres na História”, reafirmam a importância da data, e do mês de março que é dedicado às mulheres.

   É tempo de cultuar as personalidades femininas que se destacaram e estão vivas na memória através dos relatos dos seus feitos. Quem não sabe quem foram Ana Neri, Teresa de Avila, Teresa Christina... E as mulheres teresopolitanas? Certamente sabe-se bem quem foram aquelas que estiveram à frente de movimentos sociais, ou que foram empreendedoras e têm a maioria delas, por isso, guardadas as suas memórias nas placas das ruas e de prédios, ou através dos documentos oficiais que relatam os feitos daquelas que ocuparam cargos públicos - já tivemos mulher prefeita, mulheres juízas e promotoras, mulheres vereadoras, e foram várias.

   Hoje, então, é dia para lembrar de todas essas mulheres. E difundir as suas virtudes, para que seus feitos sejam repetidos pelas gerações que virão.

   Todas merecem o devido carinho. E, a mim especialmente, cabe lembrar de uma mulher teresopolitana, entre tantas, para que se resuma e represente as qualidades das demais. Poderia falar de uma mulher que se destacou na política, na educação, no esporte, na cultura, ou num negócio qualquer. Mas, estaria cometendo uma injustiça grande se não lembrasse aqui, para registrar a garra das mulheres - e definindo a importância de todas elas! -, de uma mulher que não foi professora, nem atleta, escritora e empreendedora, ou muito menos ocupou cargo público algum.


   Hoje, 8 de março, é também dia de aniversário da enfermeira Helena Turl. No dia da Mulher em 2014, essa amiga de tanta gente na cidade comemora seus 78 anos. Vai passar o dia da Mulher preocupada com os outros, certamente, como sempre faz. No mês passado estava envolvida com a entrega de uma cama hospitalar para uma pessoa que nem conhecia direito e, lembro da última vez que a ví, em dezembro, tinha me procurado no DIÁRIO para fazer uma reportagem em seu bairro que sofre de males que são crônicos em toda a cidade: buracos, falta d'água, luz fraca e ônibus com frequentes atrasos...


   Dona Helena é assim. Vive pelos outros, sejam seus filhos, netos, amigos ou vizinhos. Essa senhora de grande compaixão nasceu em 1936, na Barra do Imbuí, filha de Aurino Claussen Turl e Maria Corina Paim Turl. Teve a mesma infância de toda criança sem problemas e, quando atingiu a idade escolar, foi alfabetizada pela mãe, logo depois cursando o primário no Grupo Escolar Higino da Silveira e, mais tarde, o curso ginasial no Colégio Teresa Cristina.

   Toda criança, ou melhor, todo ser humano tem uma meta a atingir na vida e Helena teve como sonho ser enfermeira e trabalhar em hospitais. O exemplo para esta profissão ela teve em casa: sua mãe era enfermeira do Posto de Saúde e era também a única pessoa do bairro que aplicava injeções, sendo esse o motivo pelo qual achava importante ser enfermeira: “eu queria ser igual a minha mãe! Aos 12 anos me senti quase realizada, pois tive a oportunidade de aplicar minha primeira injeção. Aos 16 casei-me e tive três filhos: José Carlos, Lúcia Helena e Vera Lúcia, que me deram seis netos: Flávia, Luciano, Tatiana, Ana Paula, Artur e Rafaela. Com 19 anos ingressei no Hospital Municipal para exercer a profissão de enfermeira. Estava realizada...”, disse em entrevista a O DIÁRIO, em 2008. “Ser enfermeira não é andar de capa esvoaçante; não é ter o dia inteiro o uniforme imaculadamente branco; não é ter os cabelos sempre arrumados ou estar sempre bem vestida... Na vida real, a enfermeira tem, no final do dia de trabalho, o uniforme um pouco amassado; os cabelos rebeldes saindo para fora da rede; as pernas doloridas de tanto andar de um lado para o outro... Tive grandes emoções, mas a maior de todas foi quando realizei meu primeiro parto. Pela primeira vez ajudei com minhas mãos uma criança nascer, um ser humano com um futuro à sua frente. Quando me lembro disso, vem à minha mente a frase de que em cada criança que nasce renasce a esperança que Deus ainda tem fé na humanidade”, relatou.

   Helena Turl trabalhou em diversos hospitais. Ela é do tempo do Hospital Municipal, da Casa de Saúde Nossa Senhora de Fátima, da Maternidade Doutor George Beutner, das campanhas de vacinação pelo interior...

   Na entrevista que deu a O DIÁRIO, Helena lembrou que a “melhor seção” onde trabalhou foi o Centro Cirúrgico, onde se sentiu mais realizada. Aposentada em 1994, a enfermeira afastou-se da lida nos hospitais, mas continuou, e continua, buscando aplicar o seu conhecimento. Fez o parto da filha e da nora e teve nos braços, antes de qualquer outra pessoa, os netos Flávia e Luciano.

   Mas, cuidar da saúde da família, dos vizinhos e até de gente que não conhece é pouca tarefa para Helena. A enfermeira ainda arranja tempo para outra atividade que faz como lazer. Helena Turl cuida também da memória de Teresópolis. Coleciona livros, fotografias, ilustrações, folhetos, cartões de família e centenas de recortes de jornais contendo notícias sobre sua família, em especial sobre os feitos de seu bisavô, Coronel Henrique Fernando Claussen, num exemplo de profundo respeito por aqueles que, inegavelmente, prestaram relevantes serviços e contribuíram efetivamente para o desenvolvimento de Teresópolis.

   Irmã de Evani, Marilda e José Luiz, Helena Turl guarda também, como não poderia de ser, a memória do seu tempo de hospital. São valiosas informações sobre seu trabalho como enfermeira, além de diversas fotografias de seus colegas, orientadores e profissionais que nos últimos 50 anos trabalharam e contribuíram para o desenvolvimento da Medicina no município e para o crescimento da instituição.

  UM POUQUINHO MAIS SOBRE DONA HELENA
   Em 14 de julho de 1955, data do aniversário de sua mãe, Maria Corina (nome de praça na Barra do Imbuí), Helena iniciou seu trabalho como auxiliar de serviços gerais do Hospital Municipal, começando assim a realização de um sonho que acalentava desde criança: ser, a exemplo da mãe, uma enfermeira. No início, exerceu tarefas simples como servir comida aos pacientes, abastecer os reservatórios de água mineral que ficavam próximos aos leitos e, nas horas vagas, fazer barba e cortar os cabelos dos enfermos.
   Segundo a própria Helena Turl, ela, sempre muito tímida, um dia estava fazendo a barba de um dos doentes internados no Hospital, quando sentiu que estava sendo observada. Nervosa, olhou e se deparou com o então diretor da instituição, doutor George Beutner, e com o prefeito municipal José de Carvalho Janotti, que fez um comentário: “Nosso hospital está ótimo, temos até barbeira”.
   Mas, aqueles dias foram árduos. Helena, porém, superava a cada dia os obstáculos que se apresentavam, sempre visando atingir seu ideal. Não foi fácil sobreviver com um salário, à época, de apenas “quinhentos cruzeiros”, e ter que conviver com os constantes atrasos de pagamento que eram comuns pela Prefeitura, tendo ainda que trabalhar dobrado para suprir as faltas de seus colegas de trabalho. 
   Foi em um destes dias, com o Hospital Municipal lotado de pacientes, que as enfermeiras, atrapalhadas, puderam contar com a atenção e a proposta de ajuda de Helena Turl. Ao ser inquirida se sabia verificar a temperatura, imediatamente a jovem disse que sim, acrescentando que sua mãe, Maria Corina, era enfermeira do Posto de Saúde e que sempre a acompanhava quando ia, de 3 em 3 horas, aplicar penicilina, colocar soro e fazer curativos nos enfermos que se encontravam acamados em residências, pois Corina não trabalhava com pacientes internados. Esta rotina fez com que Helena adquirisse conhecimentos e experiências, aliadas às observações que sempre fazia, o que proporcionou à pequena jovem de apenas 12 anos aplicar a primeira injeção. 
   Os atributos profissionais, dedicação e vocação de Helena logo foram observados pelo médico e então diretor do Hospital Municipal, doutor George Beutner, que um dia profetizou: “Você será uma boa enfermeira. Compre um sapato branco, pois ao uniforme você tem direito e, a partir do dia 1º de janeiro (1956) você trabalhará como enfermeira”.
   E, é a própria Helena Turl dos Santos que conta: - “No dia 1º de janeiro de 1956 recebi meu uniforme imaculadamente branco, e só Deus sabe como me senti feliz. Não consigo esquecer que trabalhei como servente por apenas seis meses e, graças ao meu esforço, à experiência de vida que minha mãe tinha me passado e à compreensão das pessoas sensíveis, vi meu ideal a começar a ser conquistado... Não demorou muito fiz o primeiro parto, orientada por um enfermeiro. Nasceu uma linda menina! Foi uma sensação de felicidade muito grande quando percebi que tinha ajudado alguém a vir ao mundo. Depois tive a oportunidade de sentir essa emoção gostosa por muitas vezes, pois realizei 427 partos em casa e no hospital”.
   Helena Turl dos Santos trabalhou com enfermeira por 39 anos, até 22 de dezembro de 1994, dia em que assinou o livro de ponto pela última vez. Quando viu sua certidão de tempo de serviço, a emoção foi intensa, fazendo-a chorar de orgulho, ao constatar o dever cumprido. Trabalhou com centenas de profissionais, desde do primeiro diretor, doutor George Beutner, em 1956, até seu último chefe, o médico Getúlio Kader.

sábado, 1 de março de 2014

   UMA ESTRADA DE RODAGEM PARA PETRÓPOLIS

Nos anos 1930, era assim o caminho para Petrópolis - motivo de campanha pela recuperação da estrada
     Passando os olhos num exemplar de “O Therezopolis”, edição de 20 de março de 1932, vimos um interessante texto de primeira página, escrito pelo médico Armando Paracampo. Nele, o médico que deixou tantos exemplos de luta em prol do interesse coletivo em nossa cidade, relata o descontentamento do teresopolitano com as péssimas condições de tráfego da estrada “Therezopolis-Itaipava”. Conta, também, sobre uma campanha que estava sendo feita na cidade visando a recuperação desta rodovia - na época do trem, o caminho de Petrópolis era o único acesso a Teresópolis por automóvel.

     O texto vale ser reproduzido, de preferência, da forma como foi escrito. Vale, principalmente, para dar memória dos teresopolitanos da época, preocupados com o desenvolvimento da cidade: H. Sloper, Arnaldo Guinlle, José Ortigão, Cincinato Braga, Armando Vieira, H. Humpstone, Neele e Carlos Guinlle figuram na lista de contribuintes. - “Doaram 6 contos, necessitando a campanha ainda de outros 9 contos de réis”, reporta Paracampo. Além dos contribuintes, o médico e jornalista dá notícia ainda da comissão encarregada pela execução dos serviços. José Joaquim de Araújo Regadas, Francisco Smolka, Helvecio Serpa, José Ortigão e o próprio Paracampo cuidavam de arrecadar o dinheiro junto ao empresariado e da “direcção technica” dos trabalhos.

     A matéria mostra a responsabilidade que as pessoas daquela época tinham com a cidade onde moravam e tece severas críticas a quem não se aliava nas campanhas de interesses comuns e também aos governos estadual e federal. - “Não invocamos o auxílio da União e nem do Estado, para que venham consertar essa nossa estrada, porque, coitados, estão às portas da falência e da penhora!...”, observa Armando Paracampo, que dizia-se envergonhado de ter que esmolar junto aos ricos da cidade para uma obra que seria do benefício de todos. - “Infelizmente, é preciso suportar essa vergonha, porque é para benefício do Município, e para benefício de nós mesmos. E fosse somente essa a vergonha, essa a humilhação, por que passam os que estão angariando donativos e fundos para a conservação da estrada Teresópolis-Petropolis. Se não existissem também as indiretas, as gracinhas e até mesmo desaforos que somos obrigados a ouvir, aceitar e calar com paciência franciscana!...”, confessa, lembrando que é obrigação do cidadão mover-se, sacrificar-se pelo bem comum. - “Se nós mesmos nos não movermos e nos não decidimos a agir dessa maneira, para o bem comum, e para o nosso próprio bem, então é melhor que cada um arrume a trouxa, diga adeus e vá-se embora, a procura de outro lugar, onde melhor enterrar a sua fortuna, a sua atividade e o seu bem estar”, disse em tom de ameaça.

     Caminho carroçável aberto em 1898 pelo Coronel Claussen e reconstruído em 1920 pelos prefeitos de Teresópolis e de Petrópolis para a visita do Rei Alberto, da Bélgica, uma década depois, a estrada Teresópolis-Petrópolis estava em péssimo estado de conservação. E, cansados de apelar aos governos do estado e da capital e, à própria prefeitura, os teresopolitanos da época se cotizaram e resolveram fazer uma campanha pela sua recuperação, que representaria àquela altura prosperidade para o município. À frente dessa campanha homérica estavam os Guinlle Arnaldo e Carlos, Serpa, Sloper, Vieira e outros. Os mesmos que, em fevereiro de 1948, criaram a Sociedade dos Amigos de Teresópolis. Essa entidade - isso merece ser contado com detalhes - foi quem iniciou a abertura da estrada Teresópolis-Rio, sendo a empreitada encampada pelo governo federal anos depois, concluindo-se o serviço em 1959.

     O texto rememora uma época. Traz, ainda, conceitos de cidadania, de uma forma de viver em sociedade que não se pratica mais. Está desatualizado na grafia. Está desatualizado, também, contextualizando-o à atualidade: hoje, as pessoas praticamente só se associam para fins de lazer e, até da obrigação de fazer manutenção da calçada de sua propriedade o “cidadão” se esquiva.

     Um documento da história de Teresópolis, a publicação desse texto de meados do século passado serve para reavivar nossa memória. E, quem sabe, para nos provocar, incitando-nos a repensar nosso papel na formação do futuro do município.

   ESTRADA DE RODAGEM TERESÓPOLIS-PETRÓPOLIS
   Feita, ás pressas, para fim de turismo, a estrada Therezopolis-Petropolis transformou-se numa verdadeira estrada commercial.
   Ninguem desconhece os defeitos, as difficuldades as surprezas que essa estrada encessa. E todos podem bem avaliar como essas difficuldades augmentam quando se abandona a conserva do seu leito, sobretudo depois da estação chuvosa.
   E' uma estrada interessante e de bellissimo trajecto. Mas é uma estrada impropria para o transito de mercadorias e até mesmo para passeio. E' quasi uma estrada indesejavel.
   Mas... é uma estrada, e é o unico recurso que possuimos para nos mantermos em contacto com Petropolis, e por conseguinte, com o importante centro commercial que é o Rio de Janeiro.
   Por ella transitam diaramente caminhões e caminhões, e caminhões exportando e importando mercadorias. Só de Therezopolis, trafegam para o Rio, 15 caminhões, ao que estamos informados. Esses caminhões vão num dia e voltam no outro. Fazem seis viagens por semana, cada um, ou sejam, 90 viagens por semana ou 4.680 por anno, ao todo.
   Calculando uma carca media, para cada caminhão e para cada viagem, de 2.000 kilos, tomos que, por anno, são transportados e transitam pela estrada Therezopolis-Petropolis, apenasmente, 9.360.000 kilos de mercadorias, ou 10.000 toneladas a bem dizer.
   E si quizermos dar a cada kilo de mercadoria, o valor médio, ou mesmo inferior de 3$000, teremos qe por essa referida estrada, passa por anno, uma riqueza aproximada de 28.000:000$000 - Trinta mil contos!
   Essa estrada, portanto, embora de traçado pouco comodo e de accesso difficil, é uma estrada de importancia vital, para Therezopolis. Mesmo ruim como é.
   Pois bem, senhores!...
   Essa estrada está, ou melhor, estava a ponto de ficar com o transito interrompido, tal o estado deploravel em que se acha o seu leito, pela destruição systematica e impiedosa das aguas; pela absoluta falta de conservação e pelo não pequeno transito de caminhões.
   Estava a pique de ser fechada ao transito, e não, poucas vezes, esteve assim, embora pelo espaço de horas ou dias.
   Um grupo de amigos de Therezopois, decidiu, nestes ultimos dias, reconstruir a bem dizer alguns trechos dessa estrada e collocal-a em condições de bem servir o público, o commercio e principalmente a lavoura de Therezopolis, pois que é a lavoura que maior quantidade de mercadorias e cargas fornece para os caminhões.
   Esse grupo de amigos de Therezopolis, é claro, teve e tem que recorrer a outros bons amigos de Therezopolis afim de conseguir fundos necessarios para realizarem os indispensaveis concertos e reparos da referida estrada. 
   Na lista de subscriptores, que adeante vae publicada, os leitores poderão ver os nomes dos que verdadeiramente amam Therezopolis.
   Essa lista, porem, e esse pedido que é feito ás pessoas de boa vontade, como o único recurso que resta a Therezopolis para conservar a sua mais importante estrada de rodagem, representa uma vergonha e uma humilhação!...
   Não invocamos o auxilio da União e nem do Estado, para que venham concertar essa nossa estrada, porque, coitados, estão ás portas da falencia e da penhora!... O funding que é uma moratoria é o primeiro passo para a fallencia, e elle acaba de ser conseguido pela 3ª vez.
   Invocamos, isso sim, o auxilio da Prefeitura.
   Esse deve vir, e com certeza virá.
   A Prefeitura auxilia, actualmente esses serviços de reparos, com um caminhão, um chauffeur e algumas ferramentas. Achamos pequeno esse auxilio, tanto assim, que infelizmente, somos obrigados a estar esmolando auxilio de particulares, importunando-os, na verdade, com insistentes pedidos de dinheiro.
   Mas, si os poderes publicos estaduaes cruzam os braços deantes desse desastre do Municipio?
   Infelizmente, meu caro leitor, é preciso suportar essa vergonha, porque é para beneficio do Municipio, e para beneficio de nós mesmos.
   E fosse somente essa a vergonha, essa a humilhação, por que passam os que estão angariando donativos e fundos para a conservação da estrada Therezopolis-Petropolis. Si não existissem tambem as indirectas, as gracinhas e até mesmo desafôros que somos obrigados a ouvir, acceitar e calar com paciencia franciscana!
   Na verdade, ninguem nos obriga a tornarmos essa attitude.
   Mas, senhores!...
   Si nós mesmos nos não movermos e nos não decidimos a agir dessa maneira, para o bem commum, e para o nosso proprio bem, então é melhor que cada um arrume a trouxa, diga adeus e vá-se embora, a procura de outro logar, onde melhor enterrar a sua fortuna, a sua actividade e o seu bem estar.
   Para se recollocar a estrada Therezopolis-Petropolis em bôas condições de transito, serão necessarios de 14 a 15 contos. Já estão subscriptos perto de 6 contos. São precisos, portanto, ainda uns 9 contos, pelos menos.
   Será que o publico de Therezopolis, os proprietarios, commerciantes e pessoas que têm interesse nesta cidade deixem de concorrer para esta utilissima, indispensavel e inadiavel reconstrucção?
   Queremos crer que não.”

sábado, 22 de fevereiro de 2014


   HOTÉIS DE TERESÓPOLIS NOS ANOS 1940

O imponente Várzea Palace Hotel e seus jardins de meados do século passado

   EM 1949, o Ministério da Agricultura lançou uma revista para divulgar o Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Exemplar raro, possivelmente único, guardado pelo colecionador Adérito Varejão, propriedade do acervo Pró-Memória Teresópolis, a revista de 78 páginas, com primeira página colorida - exibindo o montanhista Malvino confessando-se ao Padre Pio Ottoni, quatro anos antes, em junho de 1945 -, teve a “edição cancelada” e, não fosse o interesse de Varejão pela nossa memória, muitas informações alí impressas estariam hoje perdidas. 

     Além de mostrar os encontros, conferências, congressos e festividades ocorridas no Parque, no final daquela década, a publicação revela sobre as visitas dos embaixadores do Uruguai, Estados Unidos, Portugal e Inglaterra, países que se interessaram em conhecer a estrutura da nossa “reserva florestal” e, além de imagens das pouco conhecidas montanhas da Serra dos Órgãos, relata sobre um “esporte diferente, que vinha se desenvolvendo acentuadamente no Brasil”, o alpinismo, registrando a imagem de Miguel Inácio Jorge e o passeio que tinha feito ao Dedo de Deus, com um grupo de crianças, em 17 de julho daquele ano. Nomeou ainda os quinze clubes de excursionistas que relacionavam-se com o Parque, entre eles o CERJ, do Rio de Janeiro; CESO, de Teresópolis e o CEP, de Petrópolis.

     Mas, a informação que mais me interessou foi um registro que a revista fez, na página 31, onde enumerou os hotéis e “estabelecimentos de hospedagem” existentes em Teresópolis em 1949. Dez anos antes da abertura da Estrada Direta, quando a nossa rede hoteleira sofreria grande colapso, Teresópolis tinha cerca de 25 mil habitantes e 26 estabelecimentos de hospedagem. Dez anos depois, no Censo de 1960, já contava com 52.318 habitantes e 7 estabelecimentos de pouso a mais, sendo 23 hotéis e 10 pensões. Os hotéis de 1949, em Teresópolis, segundo a Revista do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, são os seguintes: Higyno, Le Magourou, Várzea, Teresópolis, Residência, Brasil, Flórida, Atlântico, Bragança, Rever, Califórnia, São Moritz, Fazenda da Paz e Rancho Santo Antônio; as pensões, Pomar, Pinheiros, Vera Cruz, Aguiar, Iris, Rio D'Ouro, Serrana, Vielle France, Viúva Bastos, São Geraldo, São Jorge e Pensão do Alto.

     Cinquenta anos depois, com uma população próxima de 170 mil habitantes, segundo a Secretaria Municipal de Turismo temos hoje entre hotéis, pousadas e albergues, 108 estabelecimentos de hospedagem.

     Criado em 1939, pelo decreto 1822, de 30 de novembro, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos foi idealizado pelo engenheiro Armando Vieira e, criado pelo presidente Getúlio Vargas, era administrado, à época, pelo engenheiro agrônomo Gil Sobral Pinto, sendo ministro da Agricultura, então responsável pela unidade, Daniel de Carvalho.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

   Veado, quando a emenda fica pior que o soneto

Cine Eden e Grande Hotel, na antiga Siqueira Campos (ex-Veado, hoje Guaçuí)
     Quando tinha uns doze anos de idade, e trabalhava num bar em Muriaé, ouvi o garçon dizer pra mãe dar um abraço na tia Fé. Embora tímido e respeitoso, arrisquei um abuso, e perguntei pra ele, já um senhor, qual era mesmo o nome da tia. - É Fé, menino. Minha mãe se chama Esperança e a outra tia é Amor.

     Fé, Amor e Esperança. Era isso ou seriam três marias,
das Dores, da Graça ou José...


    Coisas do interior do Brasil, muito comum no Nordeste e nos cafundós de Minas Gerais.

     Mas, é no Espírito Santo que encontrei uma das histórias mais interessantes por causa de um nome. E não é nome de gente. É que denominaram Veado um distrito emancipado de Alegre. Pior, depois que veado passou a significar gay, nos anos 1930, resolveram trocar o nome da cidade, homenageando o másculo tenente Siqueira Campos, líder da marcha dos 18 do Forte de Copacabana, nome que também não foi bem aceito pela família do militar quando passaram a chamar Siqueira Campos de ex-Veado. Hoje, ex-Veado e ex-Siqueira Campos chama-se Guaçuí e, por lá, sabe-se, não é bom brincar com o assunto se estiver desarmado.

     Quando ouvi o caso tempos atrás, decidi conferir a história, afinal sempre soube que não existe ex-veado. Mas vi que tem sim e, buscando endender o caso, encontrei um texto do professor Luiz Antonio Simas que merece reprodução. Então, com o tempo curto para tantas outras coisas, posto aqui a bem escrita história, que está no blog hisbrasil.blogspot.com.br

     UM NOME PROBLEMÁTICO

     No início do século XIX, homens vindos de Minas Gerais, liderados pelo Capitão-Mor Manoel José Esteves de Lima, fundaram um povoado na região serrana do Espírito Santo. O povoado chamou-se, desde 1866, São Miguel do Veado, em homenagem ao santo e em referência ao rio Veado, que passa pertinho da localidade. São Miguel do Veado foi distrito de Cachoeiro de Itapemirim e de Alegre, até emancipar-se, em 25 de Dezembro de 1928.

     Não se sabe quem foi o autor da ideia, mas o fato é que o município emancipado recebeu o nome, puro e simples, de Veado. Em pouco tempo, e em virtude da maldade e da malícia dos habitantes das cidades vizinhas, a simpática denominação passou a desagradar os habitantes do novo município.

     Considerou-se , então, prudente trocar o nome. Veado passou a se chamar Siqueira Campos, em homenagem ao tenente rebelde e líder da marcha dos 18 do forte de Copacabana. Como ainda não havia sido criado, naquele início dos anos 30, o Código de Endereçamento Postal, o valoroso serviço do Correio, para evitar extravio, identificava a cidade como Siqueira Campos, ex-Veado.

     Acontece que Siqueira Campos, que tinha fama de machão, era o autor de uma frase célebre sobre os políticos da velha República : - Todo político é corno, veado ou ladrão. Imaginem então a revolta dos fãs de Siqueira Campos, morto precocemente, quando souberam do epíteto que o herói do tenentismo tinha adquirido. Tanto atazanaram, com abaixo-assinado, passeata e o escambau, que o nome da cidade mudou novamente. A solução encontrada, admitamos,foi porreta; o município passou a se chamar Guaçuí, que em tupi-guarani significa...veado!

     Quem não gostou nada dessa situação foi a concessionária de eletricidade do local, que atendia também a cidade de Alegre e teve que enfrentar tremenda burocracia para trocar de nome. Diante das ameaças de uma população indignada, e cansada de ser sacaneada pelos habitantes de outros municípios, a empresa capitulou, enfrentou a burocracia e abandonou o sensacional nome antigo - Companhia de Eletricidade Alegre-Veado.

   O hotel de Madame Le Magourou e a Teresópolis nos anos 1930

O hotel Le Magourou num de seus melhores registros. A imagem revela a imponência da
av. Delfim Moreira, antes rua Provincial, nos anos 1930
     Inaugurado em 24 de dezembro de 1922, na avenida Delfim Moreira, 1190, o novo prédio do hotel Le Magourou foi ao chão em setembro de 1983, depois de longo tempo de abandono. A imponente construção, cartão postal que encantava os visitantes de Teresópolis na primeira metade do século passado, chegou a ser utilizada como posto avançado de atendimento do Hospital das Clínicas e, extinto, deu lugar à moderna loja da Casa HG Materiais de Construção.
     Point de encontros políticos e reuniões importantes - no Magourou, nos anos 20 e 30, ocorriam as reuniões políticas do grupo de Olegário Bernardes - o hotel estava entre os mais importantes da época, afluindo para ele e o Várzea, na Várzea e para o Hygino e Rizzi, no Alto, os ricos da época, inclusive autoridades em visita à Teresópolis. Hóspedes mais modestos, ou que não se importavam com o glamour e o luxo, frequentavam as pensões, também muito bem instaladas. “Sempre guardei boas lembranças do Magourou. Se me lembro, e como! das tertúlias e dos saraus que ali se realizavam: uns recitando; outros cantando; outros ao piano situado na sala de estar, nos deleitando com músicas sentimentais! Como eram agradáveis esses momentos! E como eram atenciosos seus empregados: D. Carlinda, a cozinheira; Juvenal, ajudante de cozinha; Alberto, um dos garçons; os porteiros Carlos e Alceu; América e Mathilde, arrumadeiras e Manoel Pereira da Silva, atendente de limpeza”, relata o escritor e poeta Amadeu Laginestra, em seu livro Evocações, editado em 1975.
     O Hotel Le Magourou era de Josephina Le Magourou, dona da “Pensão de Madame Le Magourou”, que funcionou numa casa quase em frente, na chacara de Alfredo Balthar, onde surgiu a Casa de Saúde NS de Fátima, antes de mudar-se para o antigo hotel Paiva e Carneiro, casa baixa, chegada à rua, antiga delegacia, e Câmara Municipal a partir de 1899. A “casa baixa”, no número 1240 da avenida Delfim Moreira, que chegou a ter o nome de hotel Le Magourou antes do prédio novo ficar pronto, serviu de casa de apoio aos funcionários do hotel. Também foi derrubada, um pouco antes, e em seu terreno foram levantados dois prédios de apartamentos, guardando na ponte em frente a data 1926, marcando o período áureo daquele trecho então bucólico.
Madame Le Magourou morreu logo depois da inauguração de seu magnífico empreendimento, em 22 de julho de 1927, ficando o hotel sob a responsabilidade do marido, Jules Le Magourou, já com 76 anos de idade. Irmã de Edmond Black, comerciante no Rio de Janeiro, era mãe de Alice Walsh, casada com Francis Walsh, funcionário da Light; Maria Santa Cruz, casada com o capitão-tenente Santa Cruz; Laura Magourou e Margarida Magourou.
     Segundo o jornal O THEREZOPOLIS, Josephina Le Magourou “desfrutava em todas as camadas sociais de Therezopolis da mais viva simpatia e estima, pelo seu trato lhano e pelos seus apreciados dotes de coração, sucumbindo em avançada idade, mas, apesar disso ainda com espírito vivo e inteligente”. Devota de carinho especial às coisas da cidade, morava há muitos anos em Teresópolis, tendo assistido a evolução da “vilhota” que conhecera em fins do século anterior, representando sua perda um “claro impreenchível para os teresopolitanos”. Seu enterramento ocorreu no cemitério municipal, com grande acompanhamento, de pessoas da cidade e outras do Rio de Janeiro, “vendo-se sobre seu féretro muitas coroas e ramos de flores”.
     Com a morte de Jules, o Hotel Le Magourou mudou de mãos, passando à propriedade de Laura e Emille Ducumun. O hotel entraria em declínio no final dos anos 50, quando Ducumun cedeu o seu anexo aos médicos que abriram a Casa de Saúde Nossa Senhora de Fátima. “O anexo do hotel Le Magourou, com cerca de 20 quartos e situado dentro de um grande terreno arborizado, vivia constantemente vazio. Um verdadeiro desperdício, para mim, principalmente, que sonhava poder aproveitá-lo mais nobremente... Os queridos amigos, Laura e Emille, entenderam, então, que era hora de quitar sua dívida de gratidão para com aqueles que os atenderam nas horas difíceis por que passaram e ofereceram-me o prédio do anexo do Hotel em condições vantajosas para que pudéssemos adaptá-lo para uma Casa de Saúde.   Imediatamente, convidamos mais alguns colegas e formamos uma equipe de dez profissionais com as especialidades mais solicitadas”, relata sobre a ocupação do Anexo do Magourou o médico Arthur Dalmasso, no “Livro de Ocaian”.